segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Depois do Tempo

Era o início da década de 70, e eu morava com minha família nos Jardins. Nossa casa terminava a Rua Cravinhos, que na realidade é apenas um quarteirão que se inicia na Avenida Nove de Julho e vai até a Alameda Casa Branca. Só não fazíamos a esquina porque antes vinha a mureta lateral do imóvel que dava frente para a alameda; imóvel que nesta época estava ocupado por um Restaurante – “Jardim do Chopp”.
O Jardim do Chopp fez história na época, primeiro porque era diariamente freqüentado por, dentre outros clientes, advogados advindos da Faculdade do Largo de São Francisco, gente que consumia sem dó, e invariavelmente tinha alguma história interessante para contar, e depois porque viveu momentos de glória (e de lotação) durante a Copa do Mundo de 70, e posteriormente com a comemoração da conquista pelo Brasil.
Eu e meus amigos vizinhos, pela proximidade e comodidade sempre íamos ao Jardim do Chopp, nem que fosse só prá dar uma espiadela, bater um papo com os garçons, ou mesmo para beber alguma coisa. Mas, também tivemos a oportunidade de conhecer outros fregueses, dentre eles o saudoso (e grande são-paulino) Caio Pompeu de Toledo. Posso dizer que era agradável ouvir causos e causas, aprendendo um pouco, e jogando muita conversa fora.
Havia, no entanto, algo mais naquela casa hospitaleira e de boa comida. Um garçom de nome Ludimar de Miranda, ou Miranda, compunha poesias, e ao servir o que pedimos nos brindava com declamações emocionadas de versos feitos de palavras ditadas pelo coração. Miranda nasceu poeta uma vez que seu sentimento extrapola de forma fácil, bonita, bem escrita, a vontade de externar o que de mais puro tem o ser humano, que é o amor pela vida, claro, inserida a mulher. Era incrível a facilidade com a qual aquele homem simples nos trazia os temas, derramando palavras misturadas com lágrimas enquanto viajávamos no infinito, imaginando como os poetas têm a capacidade de falar por nós tudo aquilo que não conseguimos dizer.
O tempo passou, eu me mudei e o Jardim do Chopp deu lugar a outras casas, terminando enfim, e lógico, num prédio de apartamentos de alto padrão. Anos depois, já na década de 2000 deparei com a foto de Ludimar de Miranda estampada no jornal da Vila Mariana, onde hoje é gerente do “Brazeiro”, tradicional e bem conceituada casa de galetos na brasa situada na Rua Luis Góes. Fui até ele, claro, e a emoção (de novo a emoção) falou mais alto quando nos vimos. Sentamos por uns instantes, e nem bem tentamos matar a saudade que tínhamos do tempo que se foi e Miranda já largou seus versos sobre a toalha da mesa, enchendo de alegria o meu coração. Hoje tem vários livros publicados; ficou até meio famoso pelas fotos que me mostrou: algumas em companhia de Ministros, Secretários, mas muitas ao lado de gente simples como ele.
Nas décadas que se passaram sem que visse Miranda, guardei na memória uma de suas poesias, e volta e meia me metia a declamá-la para meus filhos ou para amigos. Esta poesia relata a ida de alguém, um tempo depois, ao lugar em que morou. Já imaginaram quanto sentimento nas lembranças dos detalhes da casa em que moramos quando crianças? Pois Miranda traz esse sentimento de forma simples e clara. Como é a vida: revestida de simplicidade e clareza, basta aproveitá-la porque o tempo não volta nunca mais...
Segue abaixo a poesia que jamais esqueci, que me levou a um tempo que ficou, e composta por um amigo, eternamente amigo. Perdoe-me, Miranda, se comi alguma frase.

DEPOIS DO TEMPO
Ludimar de Miranda

Roseiras formosas, sem folhas, sem rosas.
A casa sumida na moita crescida.
Uma porta encostada, sem trinco, sem nada;
Uma tampa de mala,
Um par de chinelos, um livro amarelo,
Cascas de nozes, um coro de vozes,
Minha velha mesa de estudo:
Meu escudo de guerreiro valente.
Na varanda em frente os pássaros chegaram,
E com medo voaram; com medo da gente.
Na água corrente, agora parada, não vejo mais nada.
Só está no fundo, fugindo do mundo,
Um sapo sozinho, todo encolhido,
Parecendo comigo:
Voltando também, não encontrando ninguém...