sábado, 30 de janeiro de 2010

Um Caso de Vida ou Morte (junho de 2002)

Quem é que, neste país, não gosta de futebol? Somos uma imensa Nação - um "país-continente" como chamam alguns - temos diferenças sociais gritantes, carências na saúde, na educação, na segurança. Roubo e corrupção são o que mais vemos! Grandes injustiças, privilégios para uns, descaso para outros.
Mas, no futebol...
Todo mundo tem um time. Cada um julga ser um pouco técnico, aquele que escala e define os esquemas de jogo. Entra ano, sai ano e o cidadão ali, firme na convicção de que sua equipe do coração realmente é a melhor.
Copa do Mundo... Só quem vive por aqui é que sabe o que é um dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo. Decretos são baixados, criam-se jurisprudências, fecham o comércio, os bancos... O comércio? Os bancos? Fecha TUDO, minha gente! E, ai de quem se atrever solicitar a outro que o ajude em alguma coisa. Jogam problemas e soluções para depois do jogo. "Agora não dá, senhor..." é a frase mais ouvida nas horas que antecedem qualquer partida de futebol (que será nervosa, demorada, sofrida mas, certamente, com um delicioso sabor de vitória no final).
Pois bem, foi num dia desses que a rotina parecia ser normal lá no prédio onde mora o Virgílio. O sol da manhã fria de junho batia na fachada do edifício, iluminando as muitas bandeiras brasileiras penduradas nas janelas dos sete andares. O salão de festas, arrumado na véspera, tinha verde e amarelo espalhados pelas paredes, onde largas fitas de papel colorido davam um tom de festa ao lugar. As cadeiras e poltronas estavam arrumadas como se fosse uma platéia, de frente para ela: sua majestade a televisão. O aparelho, vinte polegadas, estava em cima de uma mesa que, por sua vez, já estava em cima de outra mesa, maior e mais larga. Para dar um toque de patriotismo, uma enorme bandeira brasileira, linda, foi posta entre a televisão e a mesa que a sustentava de forma que os espectadores podiam vê-la desfraldada. O ambiente, enfim, estava pronto para receber seus alegres – e fanáticos - torcedores.
Era pouco antes das sete da manhã quando Virgílio desceu para buscar o pão, na padaria. Voltou e, ao entrar no saguão do prédio, percebeu que o porteiro vinha atrás, tentando falar com ele, até que conseguiu: "Sr. Virgílio, o Dr. Pedro, do apartamento 312, faleceu nesta madrugada. Foi às 2 da manhã. Dona Dora (que era a viúva, no caso) pediu para que eu avisasse o pessoal... "
Coitado do velho Pedro pensou Virgílio. Mas, desculpe, aquilo não era dia de morrer gente! Exitou em fazer a derradeira pergunta, com medo da resposta. Mas, não havia outro jeito. "E... já marcaram o enterro?" Veio a informação fria, dura, que caiu como uma pedra em sua cabeça: "Marcaram, sim senhor. Será às 15:30h, lá em Carapicuíba, onde já estão enterrados os pais do falecido e..."
O resto Virgílio nem ouviu. Era o suficiente para deixá-lo numa "sinuca de bico". Sr. Pedro, pessoa querida por todos, não merecia tal indelicadeza. Já pensou, entrar no elevador e dar de cara com D. Dora e ela, com aquela simplicidade ter de dizer; "Então, meu filho, não deu para se despedir do Pedro?". Falta de educação!
Mas, e o jogo? O Brasil entraria em campo às 16 horas e, nem que fosse de helicóptero, Virgílio estaria de volta a tempo de ver o jogo. Sim, porque Carapicuíba não é aqui do lado...
Subiu no elevador pensando no que fazer. Entrou em casa e a família percebeu a diferença. "O que houve?", perguntou a mulher. Quando ficaram sabendo, todos, se entreolharam com uma interrogação na testa. E, como eles, o prédio todo queria encontrar uma forma de solucionar a questão.
Antes que saíssem para o trabalho, alguns moradores se reuniram para uma tomada de posição. Ficou decidido que uma "comissão" representaria o edifício no velório. Essa alternativa atenderia a ambos os interesses, já que o corpo estava ali mesmo, ou seja, no apartamento. Então, uma grande parte dos vizinhos participou deste triste momento de despedida do Sr. Pedro.
O dia passava, os minutos corriam...
Próximo à hora do enterro, veio o rabecão buscar nosso amigo para seu último passeio. A esta altura, na sala do apartamento de D. Dora, uma televisão já mostrava lances de Copas anteriores, relembrando momentos de glória da nossa seleção. Muito embora o som estivesse quase ao nível zero, foi preciso um par ou ímpar entre os homens presentes para se definir quais deles carregariam o caixão até o carro. Eu disse "até o carro", porque cortejo nem pensar!
E, por acaso, vocês imaginam como os dois funcionários do Serviço Funerário estavam vestidos? Bem, o motorista vinha num terno escuro (não dava para definir a cor) de fazer inveja a qualquer mendigo. A gravata era meia-sola, ou seja, só ia até a altura do primeiro botão do casaco. Se abrisse o casaco, além da barriga, perceberíamos que o cidadão não usava cinto na calça. Agora, bem vestido mesmo estava o ajudante. Sabe aquele camarada que trabalha, trabalha e trabalha, mas não tem tempo para dormir? O rosto, deformado, parecia uma abóbora daquelas do "halloween" (a festa das bruxas americanas). Terno pra quê? Meteu uma calça cinza e uma camisa branca (?), porque afinal era com luto que ele tratava. E, claro, por baixo da camisa uma camiseta da seleção canarinho que, pela cor, deveria ser do ano de 1970, a do tri. O traje se completava com um eficiente walk man "narrando" as últimas do esporte. Uma lástima...
Bem, lá foi o velho Pedro para seu descanso eterno sem que ninguém o acompanhasse. Ninguém é modo de falar, porque a viúva e um abnegado amigo seguiram o rabecão até o cemitério.
Lá chegando, quatro valorosos funcionários aguardavam ansiosos o momento de enterrar o defunto. Levaram o caixão até a sepultura naquele silêncio característico da ocasião. Revezavam-se puxando o carrinho que os levaria ao túmulo da família do falecido. Eram três a conduzir e um a olhar o jogo numa pequena televisão, dessas de uns 5 cm2, comprada num camelô qualquer. Claro que o "telespectador" tentava disfarçar, mas isso era impossível. Como o caixão do velho Pedro, passavam o aparelho de mão em mão. Como a bola, que corria de pé em pé no campo de jogo do México...
Pararam diante do túmulo, e a viúva quis uma última despedida. Abriram o caixão e rezaram (a viúva e o amigo). A bola estava com Emerson. Emerson tocou para Cafu... "Desce o caixão, Abel", disse um dos coveiros. Veio o caixão. Cafu enfiou, de primeira, para Ronaldo. O caixão descendo... Ronaldo entrou na corrida e fuzilou no gol do adversário. Lá se foi o caixão, e Pedro junto! Os coveiros quase se engalfinharam para rever o lance. Só que o juiz anulou o gol, alegando impedimento. Abel sussurrou um palavrão no ouvido de Clarindo, o outro coveiro.
"Pega o caixão e vê se presta atenção, Zé Carlos!", disse Clarindo. Volta o caixão. Tampa-se o caixão, pois a tampa voou no momento do gol. Lá vem Ronaldinho (esse é fera!) e o adversário quase corta sua coxa com a trava da chuteira. O juiz não fala nada; quem continua rosnando é Abel, o mais revoltado. "Segura! Apara! Desce devagar! Agora, isso!", era o comando para terminar logo com a cerimônia.
E assim se fez. Depois de terem rebocado três vezes a mesma parede, além de um túmulo que não tinha nada a ver com a história, terminou o enterro do velho Pedro, falecido num dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo.
Só tem um detalhe: o corpo que é bom ficou pra fora, pois, quando Ronaldo fez o gol que o juiz anulou, o caixão se abriu e nosso herói foi arremessado, rolando jardim abaixo. Ou seja, enterraram o caixão vazio e, claro, nem perceberam.
Curiosa mesmo foi a manchete de um jornal, no dia seguinte:
'VITÓRIA BRASILEIRA NO MÉXICO MATA DE EMOÇÃO TORCEDOR DENTRO DE CEMITÉRIO, EM SÃO PAULO".

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