sábado, 30 de janeiro de 2010

Rogério Ceni (dezembro de 2008)

Eu não conheço Rogério Ceni, pessoalmente. A bem da verdade, lá pelos idos de 1997 Rogério almoçava na Cantina Portão 5, uma pizzaria que ficava encravada na lateral do Estádio Cícero Pompeu de Toledo – Morumbi – no Portão 5, quando o avistei de uma outra mesa. Era um dia de semana, eu trabalhava ali perto e vez por outra fazia minha refeição naquele restaurante. Ele estava sozinho, enfiado em seu prato, e me pareceu natural aquela figura já meio famosa comendo nas dependências do estádio que, afinal, era do clube pelo qual defendia.
Pensei em falar com ele, mas desisti imaginando o quanto me seria inconveniente se, caso fosse eu uma celebridade, alguém viesse tietar na hora sagrada do meu almoço. Mas, terminada a minha refeição, e estando sua mesa no trajeto que levava até a porta de saída, claro, não resisti e me dirigi a ele cheio de desculpas por abordá-lo naquele momento. Não tive vergonha, e pedi um autógrafo cumprimentando-o pelo trabalho que, até então, fazia no tricolor paulista. Rogério se levantou, autografou um guardanapo, e disse que estava ali para atender a quem o procurasse, porque sabia que seu público é que o mantinha ativo e voltado para o trabalho. Finalizou com um abraço. Esta foi a primeira e única vez que, até o presente momento, tive um contato direto com Rogério Ceni.
Mas, o vi atuando dezenas de vezes, a grande maioria pela televisão, mas muitas delas também assistindo aos jogos do São Paulo no Morumbi. E, à medida em que o “conhecia” percebia nele qualidades que poucos têm.
Rogério Ceni, profissionalmente falando, tem sido um goleiro perfeito, de defesas difíceis, ou de “fechar o gol” como costumamos dizer; além disso, é um dos maiores lançadores do mundo. Por diversas vezes o São Paulo fez um gol resultado de um lançamento que saiu dos pés de Rogério, preciso, milimétrico, na velocidade e distância certas. Há, no entanto, uma característica maior que é a de ter se tornado o grande, e por muito tempo será o único, goleiro a contabilizar quase uma centena de gols, feitos em cobranças de faltas perfeitas, ou em pênaltis. Dentro de campo, quando no treino ou em jogos pelo clube, ou mesmo convivendo com o grupo nas cansativas concentrações e viagens, transforma a condição de “capitão” (que já o é) em colega de trabalho, amigo, líder na acepção da palavra. A equipe precisa dele e vice versa. E ele transforma essa premissa numa razão maior para buscar, cada vez mais, a vitória, a conquista. Coletiva.
Mas, ninguém nasce vencendo, e Rogério também “comeu muita grama” até chegar aonde chegou. Da sua história eu conheço pouco: sei que nasceu no Paraná, teve infância simples, depois jogou no Mato Grosso, e finalmente veio ao São Paulo Futebol Clube. De personalidade forte, com ambição e objetivos bem definidos, foco nas metas, e uma dedicação ímpar à profissão, foi (e ainda é) contestado por muitas pessoas, que o qualificam de adjetivos menos privilegiados, e o tacham de prepotente, arrogante, convencido, e por aí afora. Segundo Nelson Rodrigues, “a unanimidade é burra” e, portanto, as críticas devem ser assimiladas, e vêem para auxiliar aqueles que pensam em se aperfeiçoar, em ser melhores e mais úteis na profissão e no pessoal.
Mas, se Rogério escreve uma trajetória de glórias na vida profissional também não é diferente na sua vida pessoal. Muito embora, como ser humano, passível de momentos de perturbação, tristeza, ou ansiedade, através desses anos – mais de dez – em que acompanho praticamente todos os dias a rotina do São Paulo F.C., aparecem evidências de forma cristalina nas entrevistas ou na postura diante das pessoas: educação e ética difíceis de ver no mundo de hoje. Rogério esbanja simpatia, atenção, inteligência, e reforça para as crianças – e até para adultos teimosos – que o trabalho, a vontade, e a crença transformam as oportunidades em realizações. O tempo se incumbe disso; basta fazer.
Além do mais, Rogério Ceni trabalha na casa que o recebeu de braços abertos, que lhe deu todas as condições de evoluir, aprender, e vencer. E ama o clube pelo qual joga. Numa entrevista, soltou a seguinte frase: “Muitos têm o prazer de jogar futebol, mas nem todos fazem isso no time que amam. O São Paulo é o sentido da minha vida. Não entro em campo para jogar futebol, mas para defender as três cores do São Paulo".
Rogério Ceni é um exemplo de homem, de ser humano, de profissional. As crianças o veneram, os colegas o ouvem, os torcedores o admiram. E, claro, os adversários o ironizam.

Há muito tempo queria deixar escritas estas palavras.
Achei agora o momento oportuno, pois o São Paulo Futebol Clube acaba de conquistar o tricampeonato brasileiro de futebol, tornando-se hexacampeão nesta competição. Uma conquista nada fácil, porém atingida por um grupo fechado, grupo esse de homens sérios que administram o clube, que apóiam sob todos os aspectos os atletas. E que têm como líder seu goleiro, seu número UM, na camisa, no clube, e na vida de todos eles.

Rogério Ceni, para mim, o maior atleta que eu vi defender (e amar) o São Paulo Futebol Clube.

Nenhum comentário:

Postar um comentário