A sala era pequena, mas bem arrumada. Um cachorro sentado, esculpido em madeira, recebia os visitantes, ao lado da porta. No centro, uma pequena mesa de vidro onde se espalhavam alguns cinzeiros, e pratinhos com salgadinhos eram oferecidos aos convidados. Cadeiras simples e pouco confortáveis rodeavam o ambiente, que ainda tinha alguns quadros na parede, e luz, muita luz acima de tudo. Impaciente, o palestrante consultava seu relógio, na esperança de que os participantes viessem de uma só vez...
Dalva havia se preparado para a reunião. Como de costume, procurou saber com antecedência sobre o assunto a ser abordado. Pesquisou, levou perguntas suas e de outras pessoas, visitou páginas e páginas da Internet, leu livros, contatou professores, fez o que pode, enfim, para poder participar efetivamente do evento - uma das poucas oportunidades que tinha, sem nenhum custo, de aprimorar o seu trabalho.
Assim era Dalva. Mulher de seus quarenta e tantos anos, sempre foi preocupada com o próximo. Já há quase meia década se dedicava para uma pequena comunidade, prestando atendimento psicológico, administrando os problemas dos outros, buscando atenuar a dor e a ansiedade de tanta gente. Esforçada, solidária, interessada, era, antes de tudo, uma pessoa organizada. Gostava dessa coisa de agendar os compromissos para poder se organizar, elaborar a pauta, e aproveitar, literalmente, das oportunidades que lhe apareciam.
Era inverno. A noite daquela reunião estava fria. Dalva havia preparado o jantar para a família, como de costume. Resolveu fazer, para ela, uma sopa rápida. Tinha pressa, porque o compromisso iniciaria às 20 horas. Sentou-se à mesa da cozinha, e saboreou dois belos e esfumegantes pratos de sopa de ervilhas. E foi para o encontro.
Escolheu uma das cadeiras bem à frente do orador. Amigos de longa data, Dalva e Plínio conheceram-se no colégio. Mas, coisas da cidade grande, tomaram rumos diferentes e, de repente, ali estavam, novamente um diante do outro. Ele para falar sobre psicologia e neurolinguística; ela só para ouvir, para absorver, para aprender...
A palestra começou com dez minutos de atraso. Dalva, atenta a tudo, talvez não tenha dado importância a uma pequena pontada no lado direito de suas costas. Plínio falava com desenvoltura, e sua voz tomava conta do ambiente. Uma segunda pontada, desta vez na barriga, fez Dalva mudar de posição. Já na terceira pontada não havia mais dúvida: era o aviso de que algo de errado estava por acontecer.
Passada meia hora do início do evento, Dalva já não tinha mais posição para ficar. A sopa de ervilhas que havia tomado fazia efeito bombástico em seu intestino, gerando gases e mais gases dentro da barriga e, pior, não podendo ser liberados!!! A sala em silêncio absoluto, exceto a voz de Plínio. As cadeiras... bem as cadeiras não tinham nem almofada, para auxiliarem a pobre da mulher a, pelo menos, “esvaziar” um pouquinho. Maldita hora essa, que custa a passar e nada, nada!, colabora com a gente.
Plínio percebeu a inquietação de Dalva. “O que houve? Você está estranha?” “É, estou com gripe...”, respondeu Dalva. Agora, imaginem se gripe deixa a pessoa daquele jeito: inchada, vermelha, inquieta. O suor escorria pelo rosto, as mãos tremiam, o corpo parecia não querer resistir. Adeus pesquisa, perguntas, Internet! Que vá tudo pro diabo! Eu quero peidar!!!!, pensava Dalva.
A saída era sair, pedir licença e ir ao banheiro. Mas Plinio, antes do início, pediu para que ninguém se ausentasse, durante a palestra. Dalva não teve coragem. Ficou ali, trancada, travada, rezando, implorando a Deus e a tudo o que é santo para que o tempo voasse, e ela pudesse se “desfazer” daquela montoeira de gases que circulavam pelo seu interior. Num dado momento, chegou a pensar que estava levitando, a pobre coitada!!!
O pior são as alucinações. Passou por momentos extremos quando imaginou uma privada, só sua, bem à sua frente. Ou, quando pensou ter ouvido o barulho das turbinas de um avião, passando ali, ao lado da sala. Um motoqueiro, uma britadeira, a sala vazia, as pessoas de fone no ouvido, um grito de gol; tudo isso era sonho para uma Dalva arrasada pelas ervilhas da sopa quente que tomou antes da reunião.
Teve um momento em que não deu prá segurar. Traçou uma estratégia, e decidiu que, pelo menos uma parte, ia descarregar. Primeiro, começou pigarrear. O barulho do pigarro poderia encobrir o “outro” barulho. Mas, convenhamos, pigarrear e peidar, ao mesmo tempo, nunca vai dar certo. Desistiu dessa. A segunda tentativa foi ficar batendo com a ponta de uma caneta no cinzeiro, prá fazer um sonzinho. Também se frustrou porque, além do barulho não ser suficiente para encobrir o “outro” barulho, Plinio chamou sua atenção (e todos fixaram o olho nela). Na terceira tentativa obteve sucesso parcial. Consistiu em arrastar a cadeira e largar a “bufa”, aos poucos. É nessas horas que percebemos como somos hábeis e criativos. Dalva conseguiu liberar uma pequena parte e, se isso foi bom, também foi ruim, porque a parte restante fez pressão, ainda maior, para poder sair. Que sufoco!!
Mas, não há mal que sempre dure, e a reunião acabou hora e meia depois. Apressada, Dalva foi ao corredor “chamar o elevador”. Que beleza!!! Sozinha, livre, à vontade para mandar bala... Não pensou duas vezes (nem dava prá pensar). Descarregou o botijão de um jeito que, quem ouviu, se espantou. Sabe o navio, quando atraca no porto? Tem uma corda imensa, grossa, que é atada a um suporte, em terra, que ajuda a segurar o navio. Depois de atada, com o movimento das ondas e a força da embarcação, ela é pressionada, resultando num barulho característico, como se fosse algo rangendo. Pois foi esse o barulho que Dalva fez no corredor. Uma pessoa, que estava no andar de baixo, ainda gritou: “Que saúde, hein!”...
Foi tudo muito rápido. A “descarga”, e em seguida a chegada do elevador. Dalva só. O elevador abre a porta, Dalva entra e, com ela, adivinha quem? No vácuo, sempre vem um pouco atrás... De repente, vem Plinio. Mais uma pessoa; outra, outra... A porta ia fechando... “Desce!!!!”, ainda gritou alguém. Segura a porta, entra a última pessoa. Doze andares, e o elevador cheio (cheio mesmo!). Alguém se atreveu a falar: “Nossa, será que tiraram o lixo por esse elevador?”. Mais um comentário: “Eu tomei banho hoje!”. Aí vem uma voz acústica lá do fundo: “Tem nego que é podre, mesmo!!!”.
Térreo... A porta mal abriu e o povo lá de dentro se engalfinhou para sair. Dalva no meio. Quieta, enrustida, envergonhada, frustrada por não ter aproveitado a palestra. Mas leve, feliz, aliviada...
Chegou em casa, procurou a panela com a sopa de ervilhas e jogou tudo fora (a panela inclusive). Nunca mais iria tocar na palavra “ervilha”. Foi pro chuveiro, tomou um belo de um banho, e deitou-se na cama. De bruços.
Ali não tinha inimigo; o campo era seu...
Dalva havia se preparado para a reunião. Como de costume, procurou saber com antecedência sobre o assunto a ser abordado. Pesquisou, levou perguntas suas e de outras pessoas, visitou páginas e páginas da Internet, leu livros, contatou professores, fez o que pode, enfim, para poder participar efetivamente do evento - uma das poucas oportunidades que tinha, sem nenhum custo, de aprimorar o seu trabalho.
Assim era Dalva. Mulher de seus quarenta e tantos anos, sempre foi preocupada com o próximo. Já há quase meia década se dedicava para uma pequena comunidade, prestando atendimento psicológico, administrando os problemas dos outros, buscando atenuar a dor e a ansiedade de tanta gente. Esforçada, solidária, interessada, era, antes de tudo, uma pessoa organizada. Gostava dessa coisa de agendar os compromissos para poder se organizar, elaborar a pauta, e aproveitar, literalmente, das oportunidades que lhe apareciam.
Era inverno. A noite daquela reunião estava fria. Dalva havia preparado o jantar para a família, como de costume. Resolveu fazer, para ela, uma sopa rápida. Tinha pressa, porque o compromisso iniciaria às 20 horas. Sentou-se à mesa da cozinha, e saboreou dois belos e esfumegantes pratos de sopa de ervilhas. E foi para o encontro.
Escolheu uma das cadeiras bem à frente do orador. Amigos de longa data, Dalva e Plínio conheceram-se no colégio. Mas, coisas da cidade grande, tomaram rumos diferentes e, de repente, ali estavam, novamente um diante do outro. Ele para falar sobre psicologia e neurolinguística; ela só para ouvir, para absorver, para aprender...
A palestra começou com dez minutos de atraso. Dalva, atenta a tudo, talvez não tenha dado importância a uma pequena pontada no lado direito de suas costas. Plínio falava com desenvoltura, e sua voz tomava conta do ambiente. Uma segunda pontada, desta vez na barriga, fez Dalva mudar de posição. Já na terceira pontada não havia mais dúvida: era o aviso de que algo de errado estava por acontecer.
Passada meia hora do início do evento, Dalva já não tinha mais posição para ficar. A sopa de ervilhas que havia tomado fazia efeito bombástico em seu intestino, gerando gases e mais gases dentro da barriga e, pior, não podendo ser liberados!!! A sala em silêncio absoluto, exceto a voz de Plínio. As cadeiras... bem as cadeiras não tinham nem almofada, para auxiliarem a pobre da mulher a, pelo menos, “esvaziar” um pouquinho. Maldita hora essa, que custa a passar e nada, nada!, colabora com a gente.
Plínio percebeu a inquietação de Dalva. “O que houve? Você está estranha?” “É, estou com gripe...”, respondeu Dalva. Agora, imaginem se gripe deixa a pessoa daquele jeito: inchada, vermelha, inquieta. O suor escorria pelo rosto, as mãos tremiam, o corpo parecia não querer resistir. Adeus pesquisa, perguntas, Internet! Que vá tudo pro diabo! Eu quero peidar!!!!, pensava Dalva.
A saída era sair, pedir licença e ir ao banheiro. Mas Plinio, antes do início, pediu para que ninguém se ausentasse, durante a palestra. Dalva não teve coragem. Ficou ali, trancada, travada, rezando, implorando a Deus e a tudo o que é santo para que o tempo voasse, e ela pudesse se “desfazer” daquela montoeira de gases que circulavam pelo seu interior. Num dado momento, chegou a pensar que estava levitando, a pobre coitada!!!
O pior são as alucinações. Passou por momentos extremos quando imaginou uma privada, só sua, bem à sua frente. Ou, quando pensou ter ouvido o barulho das turbinas de um avião, passando ali, ao lado da sala. Um motoqueiro, uma britadeira, a sala vazia, as pessoas de fone no ouvido, um grito de gol; tudo isso era sonho para uma Dalva arrasada pelas ervilhas da sopa quente que tomou antes da reunião.
Teve um momento em que não deu prá segurar. Traçou uma estratégia, e decidiu que, pelo menos uma parte, ia descarregar. Primeiro, começou pigarrear. O barulho do pigarro poderia encobrir o “outro” barulho. Mas, convenhamos, pigarrear e peidar, ao mesmo tempo, nunca vai dar certo. Desistiu dessa. A segunda tentativa foi ficar batendo com a ponta de uma caneta no cinzeiro, prá fazer um sonzinho. Também se frustrou porque, além do barulho não ser suficiente para encobrir o “outro” barulho, Plinio chamou sua atenção (e todos fixaram o olho nela). Na terceira tentativa obteve sucesso parcial. Consistiu em arrastar a cadeira e largar a “bufa”, aos poucos. É nessas horas que percebemos como somos hábeis e criativos. Dalva conseguiu liberar uma pequena parte e, se isso foi bom, também foi ruim, porque a parte restante fez pressão, ainda maior, para poder sair. Que sufoco!!
Mas, não há mal que sempre dure, e a reunião acabou hora e meia depois. Apressada, Dalva foi ao corredor “chamar o elevador”. Que beleza!!! Sozinha, livre, à vontade para mandar bala... Não pensou duas vezes (nem dava prá pensar). Descarregou o botijão de um jeito que, quem ouviu, se espantou. Sabe o navio, quando atraca no porto? Tem uma corda imensa, grossa, que é atada a um suporte, em terra, que ajuda a segurar o navio. Depois de atada, com o movimento das ondas e a força da embarcação, ela é pressionada, resultando num barulho característico, como se fosse algo rangendo. Pois foi esse o barulho que Dalva fez no corredor. Uma pessoa, que estava no andar de baixo, ainda gritou: “Que saúde, hein!”...
Foi tudo muito rápido. A “descarga”, e em seguida a chegada do elevador. Dalva só. O elevador abre a porta, Dalva entra e, com ela, adivinha quem? No vácuo, sempre vem um pouco atrás... De repente, vem Plinio. Mais uma pessoa; outra, outra... A porta ia fechando... “Desce!!!!”, ainda gritou alguém. Segura a porta, entra a última pessoa. Doze andares, e o elevador cheio (cheio mesmo!). Alguém se atreveu a falar: “Nossa, será que tiraram o lixo por esse elevador?”. Mais um comentário: “Eu tomei banho hoje!”. Aí vem uma voz acústica lá do fundo: “Tem nego que é podre, mesmo!!!”.
Térreo... A porta mal abriu e o povo lá de dentro se engalfinhou para sair. Dalva no meio. Quieta, enrustida, envergonhada, frustrada por não ter aproveitado a palestra. Mas leve, feliz, aliviada...
Chegou em casa, procurou a panela com a sopa de ervilhas e jogou tudo fora (a panela inclusive). Nunca mais iria tocar na palavra “ervilha”. Foi pro chuveiro, tomou um belo de um banho, e deitou-se na cama. De bruços.
Ali não tinha inimigo; o campo era seu...
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