sábado, 30 de janeiro de 2010

O Jantar (julho de 1998)

Aconteceu na década de 70. Nessa época, com a ditadura militar a pleno vapor aqui no Brasil, vivíamos o que chamaram de "milagre brasileiro". Ou seja, crescimento de primeiro mundo, baixas taxas de juros, etc. O fato é que, embora cerceado, o povo vivia um bom e próspero momento (que depois se reverteria e... só Deus sabe como!).
Mas, ainda namorados, Lelo e Ruth sonhavam com a construção de seu mundo, com o futuro que viria, com a casa própria, o carro, e todos aqueles planos que fazemos quando pensamos em casar. E lutavam, cada qual em seu emprego, em busca desse ideal. Difícil busca, contudo, para quem sempre revezou trabalho com estudo, emendando noites de vésperas de provas com árduos dias de longos congestionamentos, e intempéries as mais variadas.
Ricos, com certeza, não eram. Pobres, muito menos. Viviam dentro dos padrões da classe média, que tentava ascender a um patamar um pouco melhor. Por isso mesmo, dinheiro no bolso é o que menos tinham.
Mas, como todo ser humano, procuravam renovar-se em momentos só seus. Aquela coisa de sair para um programa barato, apenas para se estar junto. Para conversar, para curtir a cidade, sonhar e, claro, para namorar...
Numa tarde de domingo qualquer foram ao cinema. Não me perguntem qual filme foram ver, porque talvez nem eles mesmos saibam nos dizer. É que, também naqueles anos 70, ainda havia o costume de se utilizar do cinema para o namoro.
Voltavam no começo da noite, naquela hora em que a fome vem batendo forte. Ruth não teve coragem de falar, mas Lelo, que também estava faminto, sugeriu que comessem alguma coisa. Consultaram o bolso e... digamos, em moeda de hoje, algo em torno de R$ 10,00. Com um agravante: não existiam essas casas de "fast food", onde um sanduíche e uma Coca custam R$ 4,50.
Iniciaram uma pequena peregrinação, em busca de algo que lhes coubesse no estômago, segundo o tamanho do bolso. De repente, um cartaz na porta de um restaurante chamou a atenção: "Sopas por R$ 10,00". Pronto! Estava aí a solução. Afinal, sopa é uma delícia e alimenta bem. Quer dizer, não é aquela "quantidade", aquela "sustância", como diria outro amigo meu, mas na hora da fome...
"Boa noite", disse o garçom prestativo e ansioso, quando viu aquele casal bem vestido e perfumado. "Já escolheram?". E Lelo ali, firme e forte, salivando cada prato que olhava no cardápio, sem poder dar a entender a realidade financeira que o envolvia. Fez cara de rico, perguntou por um ou dois pratos e, finalmente, em tom convincente soltou: "Uma sopa... hummm... de ervilhas, por favor!".
Seguiu-se, então, o seguinte diálogo entre o garçom e Lelo:
"Muito bem, uma sopa de ervilhas. E, o quê mais?"
"Nada mais, obrigado", agora já meio constrangido, completou Lelo.
"Madame não vai jantar?"
"É para ela a sopa..."
"E, para o senhor?"
"Nada, obrigado. Já jantei; é só para encerrar a noite..." (sorriso amarelo)
"Bebidas?"
"Não, obrigado. Apenas a sopa..."
Veio a sopa. Quentinha, cheirosa, apetitosa. Maravilhosa! Ruth, coitada, ofereceu ao namorado e ele não quis (por educação, lógico!). Ainda que acompanhava o prato uma pequena porção de fatias de pão. Lelo tratou de comer aquele pãozinho e, vez por outra, mergulhava um pedaço dentro da sopa de Ruth, sem que o garçom percebesse.
Satisfeitos, pediram a conta. Veio a despesa: total R$ 11,00. Lelo havia se esquecido da cobrança do serviço, ou seja, os 10% que costumeiramente são incluídos. Ali estava, sobre a mesa, a sentença de morte daquele casal que resolveu fazer um programinha barato. Mas, Lelo não se apertou. Para surpresa de Ruth, chamou o garçom novamente e pediu o cardápio. Faltava a sobremesa.
"Escolhe aí, Rutinha, fica à vontade". A namorada, atônita, imaginou que o pão tivesse feito algum estrago na cabeça do companheiro. "Escolhe!", insistiu. E foi mais longe: "Olha, tem pudim, morango com creme, sorvete, frutas... deixe-me ver... Morangos com creme! Boa pedida, você quer morangos com creme... Garçom!". "Lelo!", sussurrou Ruth, "...você está louco? O que significa isso?". "Significa que você vai ficar comendo que eu vou atrás do dinheiro. Entendeu, agora?"
E, enquanto a namorada saboreava aquela deliciosa fruta, o namorado correu em casa e obteve um "empréstimo" do velho pai que, já pensando em se recolher aos aposentos, foi surpreendido com a história maluca que o filho acabara de lhe contar.
Voltou Lelo ao restaurante, todo faceiro, porque agora ainda sobraria um belo troco para o próximo encontro. Ruth estava apreensiva e respirou aliviada quando viu o semblante feliz do amado.
"Por favor, agora sim, a conta!", exigiu lelo.
Veio a conta. Algumas notas de Reais cobriram o pequeno pires que o garçom havia trazido. Foi o pires, e Lelo aguardou o troco. Sorriram, um para o outro. Como o super-herói que salva a mocinha, Lelo e Ruth teriam um final de domingo feliz.
Veio o garçom com o troco. Mal colocou o pires sobre a mesa e Lelo, ansioso e confiante, falou: "Muito obrigado, estava ótimo!". E o garçom, pensando que era uma "caixinha", puxou para si novamente o pires, e com um sorriso largo emendou, ao mesmo tempo em que virava as costas: "Somos nós quem agradecemos... Volte sempre!"
E embolsou o troco do pobre Lelo...

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