sábado, 30 de janeiro de 2010

O Chato (setembro de 2001)

Quem é que, entre nós, não conhece um chato? Em nosso relacionamento diário, pessoal e profissional, temos a oportunidade de conviver com esse ser diferenciado que, ao contrário do que se pode imaginar, representa uma parcela significativa da população.
Por ser o que é, confunde-se com o próprio ser normal, podendo tanto estar muito bem vestido, como usar roupas excêntricas, sem a menor preocupação de combinação de peças e cores. Mas, você consegue visualizá-lo através de seu comportamento, ainda que não abra a boca. De atitudes inquietas, parece estar sempre procurando algo para mexer, atingir seu objetivo. Assim, olha por todos os cantos, mexe em tudo e sorri para todos. Procura o que não tem, apenas para contestar. Nunca está contente com nada, faz sempre melhor, acredita no seu poder infinito de realizar e consertar...
Convivi com vários chatos, Mas, alguns deles marcaram sua presença em minha vida, tamanha era sua chatice. Sempre fui (ou tentei ser) compreensivo, sem ser chato também, entretanto as situações em que era colocado, às vezes, me forçaram a "esquecer" alguns princípios de educação...
Certa vez, trabalhando no Banco, numa segunda feira que antecedia um feriado (ou seja, todo mundo "emendou" e eu ali de castigo), vi na sala de espera, perto do horário de fechamento, uma figura que me chamou a atenção. Já pela sua altura era notado. Vestia uma camisa rosa social, uma bermuda cinza com cinto branco, meia social marrom e kéds preto (lembra do kéds? era um tênis reforçado). Trazia consigo um guarda-chuva e uma "capanga" (pequena bolsa para guardar pertences de toda espécie). Assobiava "O ritmo da chuva", e aquilo tirava a concentração de todo mundo. Puxou conversa com a recepcionista, com outros clientes que não conhecia e, a um dado momento, começou a criticar o Banco em voz alta. Lá fui eu, disponível no momento, "apagar aquele incêndio"...
Entrou na sala de atendimento como se estivesse pisando um templo sagrado. "Que lindo!", exclamava a tudo que via. O tapete, os móveis, os telefones, os quadros, tudo era lindo. "Muito prazer, Afrânio... Olha, eu sempre quis entrar nesse Banco. Não sei, mas achava que não era pro meu "bico". Então, ficava na dúvida... Mas hoje criei coragem e entrei! Que lugar lindo! Só que esse seu arquiteto, hein! Pisou na bola ali naquela sala de reunião. Imagina, uma mesa daquele tamanho e só seis cadeiras! Além disso, essas cores dos móveis com o tapete..."
A metralhadora disparou e foi sobrando "bala" prá tudo que é lado. Eu tentei contê-lo: "Pois não, que bom que o senhor nos procurou! Em que podemos ser úteis?". E o cidadão continuou: "Bom, espero ter aqui o atendimento que o MoneyBank não me deu. É engraçado, a gente é cliente há tantos anos, prestigia, e o Banco não tá nem aí. Porque eu uso mesmo! Ah, isso eu uso! Se eu tenho um cartão de crédito é prá usar. Tem uma loja que eu compro, todos os dias, cem gramas de castanha de caju. Pago com cartão, e daí? Vai achar ruim? Se eu fosse porcaria não me davam cartão, certo?... No banco também é assim. Abriram minha conta, quiseram meu dinheiro, usaram meu nome prá falar prá todo mundo que os clientes estão satisfeitos... E agora, na hora do vamos ver, eles me rejeitam? Vocês não são assim, vocês tem boa fama, por isso que eu vim aqui..."
Os clientes antigos, acostumados com a postura e a filosofia do Banco, estranhavam aquela figura "diferenciada" entre eles. Mais uma vez rezei uma "Ave Maria" e pedi a Deus prá me dar paciência com o tal do cliente novo. "Sr. Afrânio, o senhor quer uma conta corrente? Podemos ver a documentação, sua renda mensal...". "Não me fale em renda mensal! Quem cuida disso é meu contador. Aliás, não quero dar trabalho a ninguém. Eu procuro, mesmo, é uma poupança segura que possa me garantir o futuro. Sabe, a gente vive numa cidade dessas, a saúde...". Cortei a conversa: "Que bom! Uma poupança... Podemos abri-la, com o maior prazer... Qual o valor que o senhor pretende aplicar?". "Bem, inicialmente pretendo colocar uma parte do que tenho no MoneyBank. Tá louco! Banco estrangeiro nunca mais! Lá só se fala em dólar, aqui nossa moeda...". "Quanto, por favor, senhor Afrânio?". "Bem, pensei numa quantia simbólica, mas vai crescer. Você aposta em mim, acredita no meu potencial e eu trago mais, aos poucos, mês a mês". "Está bem, então de quanto é sua aplicação inicial?". "Digamos... uns dez reais, está bem assim?"
Seria cômico se não fosse trágico. A essa altura dos acontecimentos, todas as atenções estavam voltadas para a figura folclórica que eu atendia. E continuava, falando alto, botando banca de bacana, discursando contra o governo, e contra o “ex-banco”. Num determinado momento, pediu para ir ao banheiro e, se tivemos uma trégua de minutos, ao voltar ele nos “compensou” ao aparecer fazendo rolinho de um pedaço de papel higiênico, como o qual penetrava no nariz a fim de limpa-lo, na frente de todos.
Bem, eu tinha de definir aquela situação. Maltratar, jamais. Isso nunca fez parte da minha educação, nem da postura profissional. Além disso, existem algumas reações básicas que você nunca deve ter diante de um chato. Como, por exemplo, contestar, orientar, duvidar, perguntar, sugerir, etc. O tiro pode sair pela culatra. Portanto, só resta uma alternativa a curto prazo: obedecer. E foi o que eu fiz...
“Pronto, sr. Afrânio! Aqui está a sua poupança de R$ 10,00 reais devidamente aplicada, e já rendendo juros e correção monetária a partir de agora! Muito obrigado pela escolha do nosso Banco. O senhor poderia me dar o cheque, para eu anotar os dados da aplicação?”. Perceberam meu atendimento?
“Cheque? Aplicação? Olha, querido (termo utilizado pelo chato profissional), eu não ando com talão de cheque em véspera de feriado. Você sabe, a violência está insuportável, o governo não nos protege, só Deus para nos proteger... De mais a mais, eu hoje só vim mesmo para conhecer seu Banco, e as condições que vocês têm para aplicar meu dinheiro”.
E, levantando-se, foi saindo de fininho após quase uma hora de tempo perdido. O público, que se transformou em platéia, acompanhou os passos firmes da “figura”, que se retirava do ambiente.
Mas, ao chegar na porta, deu aquela meia volta sobre os calcanhares, olhou bem para todos, respirou fundo, sorriu no canto da boca a felicidade da atenção que lhe dispensavam, e emendou firme e forte:
“Mas eu vou pensar no assunto. Quero ver se faço uma também para o meu filho. Vocês têm poupança de R$ 1,00?”
E, virando as costas, nem esperou pela resposta.

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