sábado, 30 de janeiro de 2010

O Carro (abril de 2003)

A padaria, como a maioria delas, ficava na esquina de um bairro industrial da cidade. Sem nenhuma preocupação arquitetônica a construção era simples, cuja entrada principal estava voltada para uma Avenida, e tinha um recuo de maneira que, antes de se chegar ao seu ambiente interior, haviam três espaços demarcados na calçada rebaixada para que os automóveis dos fregueses pudessem ali estacionar.
Como única opção para alimentação dos trabalhadores da região, a padaria tinha bom movimento, embora a qualidade dos produtos que servisse fosse de nível inferior. Mas, limpa, cobrando de acordo com o poder aquisitivo dos consumidores, e com atendimento cordial, funcionava bem.
Era uma terça feira, na hora do almoço. Em torno do balcão de alumínio viam-se pratinhos servidos com quitutes de preparo rápido, a estufa recheada de bolinhos, tortinhas, pastéis, uma variedade de salgadinhos para todos os gostos. Nos banquinhos que circundavam o balcão, e nas poucas mesas simples que se dispunham numa área a elas destinada, havia muita gente. Gente simples, de macacão sujo ou de avental idem, ao lado de pequenos empresários e funcionários de escritório, crianças, donas de casa, bêbados, jogadores de máquinas eletrônicas, de tudo um pouco, enfim. Os funcionários, atarantados, tratavam de dar conta aos pedidos, e do “serviço com qualidade” que era lema do lugar.
Foi quando as atenções se voltaram para fora. Através de portas e janelas de vidro, os olhares dos presentes se fixaram numa figura diferente que, a partir da calçada, indicava sua intenção de juntar-se a eles, mas de uma maneira estranha.
O homem que vinha da rua parecia ser um de seus moradores. Daqueles que não têm onde ficar, e param quando se cansam, comem do que lhes dão, e dormem ao relento, na esperança de encontrarem, um dia, quem lhes reconheça o direito de serem iguais a todos. De altura mediana, moreno claro, magro, devia ter seus trinta e dois anos, no máximo. Apesar do aspecto mal cuidado, barba por fazer, roupa velha e suja, aquele homem parecia brincar com seu destino. E foi isso que chamou a atenção de todos.
Apareceu pelo meio fio da rua, simulando que estava dirigindo um carro. Os braços estendidos para frente davam a nítida impressão de que ele controlava o volante, ora virando para à esquerda, ora para a direita. Acionou o pisca pisca, manobrou, e entrou numa das vagas. Olhou pelo retrovisor, acertou o carro na vaga, puxou o freio de mão, abriu a porta, e desceu do veículo. Tomou cuidado de fechar a porta sem batê-la, e travou-a com a chave. Tudo fictício, tudo simulado. Partiu, então, feliz, e girando o chaveiro (também fictício), para a sua entrada triunfal na padaria.
A esta altura os frequentadores, mesmo surprêsos, riam da sequência desenvolvida pelo novo freguês, e esperavam pela sua vinda porque queriam ver de perto uma figura tão engraçada. Havia, claro, os preconceituosos, os que, mesmo sussurrando, não exitaram em criticar a presença de um “indigente”, alguém que pudesse “contaminar” o ambiente com uma eventual doença, ou mesmo com sua falta de higiene. Mas, o fato é que o homem entrou, e lentamente tratou de caminhar procurando menos um lugar do que um resto de qualquer coisa que fizesse matar sua fome. Em segundos apareceu, ao seu lado, um dos funcionários do lugar tentando convencê-lo a esperar pela “qualquer coisa” do lado de fora. Como ele pediu um copo d’água, o funcionário tratou de agilizar para que ele o bebesse o mais rápido possível e, assim, finalmente se veria livre do visitante.
De repente, mais uma surprêsa. O homem olhou para fora e viu um caminhão de bebidas estacionar bem atrás de onde estaria o seu suposto carro. Foi o suficiente para sair apressado, esbarrando nas pessoas, derrubando coisas, indo direto ao motorista do caminhão. De dedo em riste, o homem queria que o caminhão saísse de onde estava, e o motorista deste, sem ao menos olhar na cara do sujeito, continuava a fazer o seu trabalho de descarregar a bebida. Houve até quem, de dentro da padaria, alertasse ao motorista que ele havia obstruído a passagem do “veículo” do freguês mas, impassível e assobiando, continuava a pegar a bebida e levar até a padaria, para novamente buscar novo carregamento. Foi assim durante uns cinco minutos. Até que, findo o trabalho, e vencido pela reclamação do homem, o motorista resolveu sair dali e encostar um pouco mais adiante.
Todos respiraram aliviados. Era o que faltava para que tudo voltasse ao normal.
Já ia voltando para dentro da padaria, quando o homem, e os demais, ouviram novo ruído de carro estacionando. O homem voltou seu olhar para trás e, ainda mais surprêso, viu um carro do Detran parar ali, atrás do “dele”. De dentro desceram dois policiais que queriam apenas matar sua sede. A padaria prendeu a respiração. Foram segundos de verdadeiro suspense...
Ao ver os policiais o homem ficou perturbado. O que teria passado naquela cabeça? O fato é que, ao se cruzarem, entreolharam-se desconfiadamente. Os policiais, um de cada lado, observavam aquela figura estranha, parada, trêmula, olhando para eles. E o homem, angustiado, indeciso, assustado, parecia procurar uma forma de abordá-los.
- Tudo bem?, perguntou um dos policiais.
- Tttttuddddo, respondeu o homem.
A esta altura a padaria mais parecia a arquibancada de um estádio de futebol. Os fregueses abandonaram seus lugares, deixaram suas refeições, e disputavam cada centímetro de chão, para testemunhar aquele momento. Viram quando houve uma tentativa de diálogo.
- Algum problema, amigo?, disse o policial.
- É...
- É o quê?, insistiu
- É...é...é que...
- Fale, homem!
- O senhor... O senhor... é...
- Não vai falar?
Foi aí que, movido por uma força superior o pobre homem resolveu falar.
- É que o senhor... Bem, o senhor parou o carro...
- Sim, parei, e daí? Disse o policial.
- O senhor parou, atrás do meu...
- O quê???? Atrás de onde???, indagou o policial, surprêso e rindo, enquanto olhava para o colega...
O homem perdeu a compostura, e passou a falar alto.
- Atrás do meu, não ouviu? PAROU O CARRO ATRÁS DO MEU, E EU QUERO SAIR!
Os policiais, atônitos, até que olharam bem para certificar-se de que não havia carro nenhum ali. Depois, refeitos, resolveram dar continuidade no assunto. E um deles disse:
- Está bem, paramos sim. Mas, foi de propósito.
A padaria, parada, acompanhava. O homem retrucou:
- De propósito? Como assim? Não veem que quero sair? É um direito meu!!!
- Espere, disse o guarda. Paramos de propósito, porque estamos fazendo uma verificação na redondeza. Deram parte de um veículo roubado, com as mesmas características que esse seu aqui...
- O quê? Perguntou o homem, de olhos arregalados...
- É isso aí, amigo. Por favor, os documentos do veículo e sua Carteira de Habilitação...
Pois o pobre homem teve no rosto o reflexo do pavor. Primeiro ficou petrificado, olhando para a mão de um dos policiais que, espalmada à sua frente, esperava pelos documentos solicitados. Depois, e lentamente, começou a mover-se para trás. Foi um passo, depois mais um, e outro, outro... Até que disparou pela avenida, cruzando perigosamente na frente de outros veículos.
Na padaria, passado um momento de frustração, a vida voltou ao normal.
Numa das ruas próximas, sentado na calçada, ofegante, transtornado, triste, indignado, o homem tentava contar para um colega de rua seu. Enquanto se refazia do acontecido, virou o rosto para o amigo e disse:
- Dá uma chegada na padaria, prá mim. Vai pelo outro lado da calçada. Disfarça e olha. Depois me diz se o guincho levou meu carro...

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