Todo mundo sabe que, dentro de um táxi, num salão de beleza ou no barbeiro é que saem os papos mais refinados e curiosos da sociedade. Se você quiser saber de algo, não tenha dúvida, escolha uma entre as três opções e a questão estará resolvida.
Outro dia fui "aparar" a careca no salão do Chico onde, há anos (desde o tempo em que eu tinha cabelo) costumo cortar.
O ambiente, simples, é dividido entre dois profissionais. Francisco, um senhor de seus sessenta e poucos anos, careca, com largas costeletas invadindo as bochechas, está sempre falante. Gosta de manter a clientela "atualizada", e fica louco de raiva quando um novo freguês escolhe seu parceiro para cortar; é indisfarçável sua reação e isso, já havíamos falado a respeito, torna-se um marketing negativo para ele. Mas, para aquele velho profissional, pouco importa a conseqüência de seu desprezo.
João é seu sócio. Um pouco mais novo talvez, esse tem cara de barbeiro: cabelo grisalho bem cortado e aquele bigodinho branco, fininho, quase reto, aparado sobre o lábio superior. Religioso, mantém-se reservado, concentrado no seu trabalho. Raras vezes ouve-se sua voz e, assim mesmo, é quase um sussurro.
Jamais brigaram. Claro, uma discussão aqui, um mal-entendido ali, isso faz parte. Mas briga, de verdade, nunca!
Pois foi que cheguei e, ainda cedo, estavam sozinhos. João arrumava os apetrechos, escovando-os. Limpava também o pequeno aparador que sustenta pentes e tesouras de todos os tipos e tamanhos (acho que para "todos os cabelos"). Chico, sentado num canto, fumava. No ar, a voz romântica de Nelson Gonçalves devia estar levando ambos a longínquos e bem vividos lugares...
Sentei e, como de costume, brinquei com Chico: "Tira bastante, que eu pareço um Beatle!". Pobres dos meus cabelos, que saudade!
Logo chegou outro freguês e sentou-se na cadeira do João. Minha filha, que me acompanhava, observava atenta a movimentação daquilo tudo. Só movimentos, o silêncio imperava.
Mas, salão que é salão tem que ter seu temperinho. E Chico, de repente, solta esta: "Amor... amor não existe. Mulher quer é dinheiro!". O sotaque caipira transformava o "amor" do Chico numa palavra maior do que simplesmente era.
João retrucou: "Claro que existe! Sem amor a gente não vive..."
"Se existisse, a Maria não tinha me largado", continuou Chico, abrindo seu coração.
João filosofou: "Não precisa estar junto para sentir amor. Pode amar mesmo à distância. E, outra: você pode amar dando de comer a alguém, ou vestindo uma criança..."
"Isso é amizade, não é amor!", contestou Chico.
"Amor ao próximo...", rebateu João. "...está nas Escrituras"
Silêncio, novamente. Apenas o picotar das tesouras e, cada um de nós a pensar naquele assunto. Mas Chico é fogo! Sabe, é essa coisa de querer dar a última palavra. E mandou esse balaço: "Você tem certeza que a baiana te ama?". Nossa Senhora! Temi pelo pior. Mas João limitou-se a responder: "Claro que sim!".
E novo ataque: "Pois, se eu fosse você, não teria. Tanto que ela te judia, e você ainda acha?".
Que situação! Ficamos constrangidos com aquilo, mas ouvindo e torcendo para que tudo acabasse bem.
João, tão ingênuo, ainda argumentou: "Ela gosta sim! Convidou-me para ir para a Bahia com ela!".
E Chico insistindo: "Amor e amizade não existem. Já falei que mulher quer mesmo é grana...", e declamou dois versos de uma canção antiga, porém conhecida, também de Nelson Gonçalves: "Amigo, palavra fácil de pronunciar; amigo, coisa difícil de se encontrar..."
Nesse ponto minha careca já estava devidamente aparada e saí deixando abraços no ar.
Três passos lá fora, minha filha questionou:
"Pai, que coisa absurda esses dois! Imagina: onde está a vida, sem amor e sem amizade?".
Nada a declarar. Matou a charada...
Mas, "pessoas são pessoas", dizia um professor meu. E, cada um desses seres incríveis passa pelas mais diversas e diferentes situações e emoções, tornando-os também diferentes, uns dos outros.
Agora, de uma coisa eu tenho certeza: tudo o que somos e fazemos, tudo que nos cerca e nos guia, tudo, enfim, está envolvido num sentimento tão simples quanto tão inexplicável, e que aprendemos a chamar de "amor".
Querendo ou não o velho Chico...
Outro dia fui "aparar" a careca no salão do Chico onde, há anos (desde o tempo em que eu tinha cabelo) costumo cortar.
O ambiente, simples, é dividido entre dois profissionais. Francisco, um senhor de seus sessenta e poucos anos, careca, com largas costeletas invadindo as bochechas, está sempre falante. Gosta de manter a clientela "atualizada", e fica louco de raiva quando um novo freguês escolhe seu parceiro para cortar; é indisfarçável sua reação e isso, já havíamos falado a respeito, torna-se um marketing negativo para ele. Mas, para aquele velho profissional, pouco importa a conseqüência de seu desprezo.
João é seu sócio. Um pouco mais novo talvez, esse tem cara de barbeiro: cabelo grisalho bem cortado e aquele bigodinho branco, fininho, quase reto, aparado sobre o lábio superior. Religioso, mantém-se reservado, concentrado no seu trabalho. Raras vezes ouve-se sua voz e, assim mesmo, é quase um sussurro.
Jamais brigaram. Claro, uma discussão aqui, um mal-entendido ali, isso faz parte. Mas briga, de verdade, nunca!
Pois foi que cheguei e, ainda cedo, estavam sozinhos. João arrumava os apetrechos, escovando-os. Limpava também o pequeno aparador que sustenta pentes e tesouras de todos os tipos e tamanhos (acho que para "todos os cabelos"). Chico, sentado num canto, fumava. No ar, a voz romântica de Nelson Gonçalves devia estar levando ambos a longínquos e bem vividos lugares...
Sentei e, como de costume, brinquei com Chico: "Tira bastante, que eu pareço um Beatle!". Pobres dos meus cabelos, que saudade!
Logo chegou outro freguês e sentou-se na cadeira do João. Minha filha, que me acompanhava, observava atenta a movimentação daquilo tudo. Só movimentos, o silêncio imperava.
Mas, salão que é salão tem que ter seu temperinho. E Chico, de repente, solta esta: "Amor... amor não existe. Mulher quer é dinheiro!". O sotaque caipira transformava o "amor" do Chico numa palavra maior do que simplesmente era.
João retrucou: "Claro que existe! Sem amor a gente não vive..."
"Se existisse, a Maria não tinha me largado", continuou Chico, abrindo seu coração.
João filosofou: "Não precisa estar junto para sentir amor. Pode amar mesmo à distância. E, outra: você pode amar dando de comer a alguém, ou vestindo uma criança..."
"Isso é amizade, não é amor!", contestou Chico.
"Amor ao próximo...", rebateu João. "...está nas Escrituras"
Silêncio, novamente. Apenas o picotar das tesouras e, cada um de nós a pensar naquele assunto. Mas Chico é fogo! Sabe, é essa coisa de querer dar a última palavra. E mandou esse balaço: "Você tem certeza que a baiana te ama?". Nossa Senhora! Temi pelo pior. Mas João limitou-se a responder: "Claro que sim!".
E novo ataque: "Pois, se eu fosse você, não teria. Tanto que ela te judia, e você ainda acha?".
Que situação! Ficamos constrangidos com aquilo, mas ouvindo e torcendo para que tudo acabasse bem.
João, tão ingênuo, ainda argumentou: "Ela gosta sim! Convidou-me para ir para a Bahia com ela!".
E Chico insistindo: "Amor e amizade não existem. Já falei que mulher quer mesmo é grana...", e declamou dois versos de uma canção antiga, porém conhecida, também de Nelson Gonçalves: "Amigo, palavra fácil de pronunciar; amigo, coisa difícil de se encontrar..."
Nesse ponto minha careca já estava devidamente aparada e saí deixando abraços no ar.
Três passos lá fora, minha filha questionou:
"Pai, que coisa absurda esses dois! Imagina: onde está a vida, sem amor e sem amizade?".
Nada a declarar. Matou a charada...
Mas, "pessoas são pessoas", dizia um professor meu. E, cada um desses seres incríveis passa pelas mais diversas e diferentes situações e emoções, tornando-os também diferentes, uns dos outros.
Agora, de uma coisa eu tenho certeza: tudo o que somos e fazemos, tudo que nos cerca e nos guia, tudo, enfim, está envolvido num sentimento tão simples quanto tão inexplicável, e que aprendemos a chamar de "amor".
Querendo ou não o velho Chico...
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