sábado, 30 de janeiro de 2010

Rogério Ceni (dezembro de 2008)

Eu não conheço Rogério Ceni, pessoalmente. A bem da verdade, lá pelos idos de 1997 Rogério almoçava na Cantina Portão 5, uma pizzaria que ficava encravada na lateral do Estádio Cícero Pompeu de Toledo – Morumbi – no Portão 5, quando o avistei de uma outra mesa. Era um dia de semana, eu trabalhava ali perto e vez por outra fazia minha refeição naquele restaurante. Ele estava sozinho, enfiado em seu prato, e me pareceu natural aquela figura já meio famosa comendo nas dependências do estádio que, afinal, era do clube pelo qual defendia.
Pensei em falar com ele, mas desisti imaginando o quanto me seria inconveniente se, caso fosse eu uma celebridade, alguém viesse tietar na hora sagrada do meu almoço. Mas, terminada a minha refeição, e estando sua mesa no trajeto que levava até a porta de saída, claro, não resisti e me dirigi a ele cheio de desculpas por abordá-lo naquele momento. Não tive vergonha, e pedi um autógrafo cumprimentando-o pelo trabalho que, até então, fazia no tricolor paulista. Rogério se levantou, autografou um guardanapo, e disse que estava ali para atender a quem o procurasse, porque sabia que seu público é que o mantinha ativo e voltado para o trabalho. Finalizou com um abraço. Esta foi a primeira e única vez que, até o presente momento, tive um contato direto com Rogério Ceni.
Mas, o vi atuando dezenas de vezes, a grande maioria pela televisão, mas muitas delas também assistindo aos jogos do São Paulo no Morumbi. E, à medida em que o “conhecia” percebia nele qualidades que poucos têm.
Rogério Ceni, profissionalmente falando, tem sido um goleiro perfeito, de defesas difíceis, ou de “fechar o gol” como costumamos dizer; além disso, é um dos maiores lançadores do mundo. Por diversas vezes o São Paulo fez um gol resultado de um lançamento que saiu dos pés de Rogério, preciso, milimétrico, na velocidade e distância certas. Há, no entanto, uma característica maior que é a de ter se tornado o grande, e por muito tempo será o único, goleiro a contabilizar quase uma centena de gols, feitos em cobranças de faltas perfeitas, ou em pênaltis. Dentro de campo, quando no treino ou em jogos pelo clube, ou mesmo convivendo com o grupo nas cansativas concentrações e viagens, transforma a condição de “capitão” (que já o é) em colega de trabalho, amigo, líder na acepção da palavra. A equipe precisa dele e vice versa. E ele transforma essa premissa numa razão maior para buscar, cada vez mais, a vitória, a conquista. Coletiva.
Mas, ninguém nasce vencendo, e Rogério também “comeu muita grama” até chegar aonde chegou. Da sua história eu conheço pouco: sei que nasceu no Paraná, teve infância simples, depois jogou no Mato Grosso, e finalmente veio ao São Paulo Futebol Clube. De personalidade forte, com ambição e objetivos bem definidos, foco nas metas, e uma dedicação ímpar à profissão, foi (e ainda é) contestado por muitas pessoas, que o qualificam de adjetivos menos privilegiados, e o tacham de prepotente, arrogante, convencido, e por aí afora. Segundo Nelson Rodrigues, “a unanimidade é burra” e, portanto, as críticas devem ser assimiladas, e vêem para auxiliar aqueles que pensam em se aperfeiçoar, em ser melhores e mais úteis na profissão e no pessoal.
Mas, se Rogério escreve uma trajetória de glórias na vida profissional também não é diferente na sua vida pessoal. Muito embora, como ser humano, passível de momentos de perturbação, tristeza, ou ansiedade, através desses anos – mais de dez – em que acompanho praticamente todos os dias a rotina do São Paulo F.C., aparecem evidências de forma cristalina nas entrevistas ou na postura diante das pessoas: educação e ética difíceis de ver no mundo de hoje. Rogério esbanja simpatia, atenção, inteligência, e reforça para as crianças – e até para adultos teimosos – que o trabalho, a vontade, e a crença transformam as oportunidades em realizações. O tempo se incumbe disso; basta fazer.
Além do mais, Rogério Ceni trabalha na casa que o recebeu de braços abertos, que lhe deu todas as condições de evoluir, aprender, e vencer. E ama o clube pelo qual joga. Numa entrevista, soltou a seguinte frase: “Muitos têm o prazer de jogar futebol, mas nem todos fazem isso no time que amam. O São Paulo é o sentido da minha vida. Não entro em campo para jogar futebol, mas para defender as três cores do São Paulo".
Rogério Ceni é um exemplo de homem, de ser humano, de profissional. As crianças o veneram, os colegas o ouvem, os torcedores o admiram. E, claro, os adversários o ironizam.

Há muito tempo queria deixar escritas estas palavras.
Achei agora o momento oportuno, pois o São Paulo Futebol Clube acaba de conquistar o tricampeonato brasileiro de futebol, tornando-se hexacampeão nesta competição. Uma conquista nada fácil, porém atingida por um grupo fechado, grupo esse de homens sérios que administram o clube, que apóiam sob todos os aspectos os atletas. E que têm como líder seu goleiro, seu número UM, na camisa, no clube, e na vida de todos eles.

Rogério Ceni, para mim, o maior atleta que eu vi defender (e amar) o São Paulo Futebol Clube.

Um Caso de Vida ou Morte (junho de 2002)

Quem é que, neste país, não gosta de futebol? Somos uma imensa Nação - um "país-continente" como chamam alguns - temos diferenças sociais gritantes, carências na saúde, na educação, na segurança. Roubo e corrupção são o que mais vemos! Grandes injustiças, privilégios para uns, descaso para outros.
Mas, no futebol...
Todo mundo tem um time. Cada um julga ser um pouco técnico, aquele que escala e define os esquemas de jogo. Entra ano, sai ano e o cidadão ali, firme na convicção de que sua equipe do coração realmente é a melhor.
Copa do Mundo... Só quem vive por aqui é que sabe o que é um dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo. Decretos são baixados, criam-se jurisprudências, fecham o comércio, os bancos... O comércio? Os bancos? Fecha TUDO, minha gente! E, ai de quem se atrever solicitar a outro que o ajude em alguma coisa. Jogam problemas e soluções para depois do jogo. "Agora não dá, senhor..." é a frase mais ouvida nas horas que antecedem qualquer partida de futebol (que será nervosa, demorada, sofrida mas, certamente, com um delicioso sabor de vitória no final).
Pois bem, foi num dia desses que a rotina parecia ser normal lá no prédio onde mora o Virgílio. O sol da manhã fria de junho batia na fachada do edifício, iluminando as muitas bandeiras brasileiras penduradas nas janelas dos sete andares. O salão de festas, arrumado na véspera, tinha verde e amarelo espalhados pelas paredes, onde largas fitas de papel colorido davam um tom de festa ao lugar. As cadeiras e poltronas estavam arrumadas como se fosse uma platéia, de frente para ela: sua majestade a televisão. O aparelho, vinte polegadas, estava em cima de uma mesa que, por sua vez, já estava em cima de outra mesa, maior e mais larga. Para dar um toque de patriotismo, uma enorme bandeira brasileira, linda, foi posta entre a televisão e a mesa que a sustentava de forma que os espectadores podiam vê-la desfraldada. O ambiente, enfim, estava pronto para receber seus alegres – e fanáticos - torcedores.
Era pouco antes das sete da manhã quando Virgílio desceu para buscar o pão, na padaria. Voltou e, ao entrar no saguão do prédio, percebeu que o porteiro vinha atrás, tentando falar com ele, até que conseguiu: "Sr. Virgílio, o Dr. Pedro, do apartamento 312, faleceu nesta madrugada. Foi às 2 da manhã. Dona Dora (que era a viúva, no caso) pediu para que eu avisasse o pessoal... "
Coitado do velho Pedro pensou Virgílio. Mas, desculpe, aquilo não era dia de morrer gente! Exitou em fazer a derradeira pergunta, com medo da resposta. Mas, não havia outro jeito. "E... já marcaram o enterro?" Veio a informação fria, dura, que caiu como uma pedra em sua cabeça: "Marcaram, sim senhor. Será às 15:30h, lá em Carapicuíba, onde já estão enterrados os pais do falecido e..."
O resto Virgílio nem ouviu. Era o suficiente para deixá-lo numa "sinuca de bico". Sr. Pedro, pessoa querida por todos, não merecia tal indelicadeza. Já pensou, entrar no elevador e dar de cara com D. Dora e ela, com aquela simplicidade ter de dizer; "Então, meu filho, não deu para se despedir do Pedro?". Falta de educação!
Mas, e o jogo? O Brasil entraria em campo às 16 horas e, nem que fosse de helicóptero, Virgílio estaria de volta a tempo de ver o jogo. Sim, porque Carapicuíba não é aqui do lado...
Subiu no elevador pensando no que fazer. Entrou em casa e a família percebeu a diferença. "O que houve?", perguntou a mulher. Quando ficaram sabendo, todos, se entreolharam com uma interrogação na testa. E, como eles, o prédio todo queria encontrar uma forma de solucionar a questão.
Antes que saíssem para o trabalho, alguns moradores se reuniram para uma tomada de posição. Ficou decidido que uma "comissão" representaria o edifício no velório. Essa alternativa atenderia a ambos os interesses, já que o corpo estava ali mesmo, ou seja, no apartamento. Então, uma grande parte dos vizinhos participou deste triste momento de despedida do Sr. Pedro.
O dia passava, os minutos corriam...
Próximo à hora do enterro, veio o rabecão buscar nosso amigo para seu último passeio. A esta altura, na sala do apartamento de D. Dora, uma televisão já mostrava lances de Copas anteriores, relembrando momentos de glória da nossa seleção. Muito embora o som estivesse quase ao nível zero, foi preciso um par ou ímpar entre os homens presentes para se definir quais deles carregariam o caixão até o carro. Eu disse "até o carro", porque cortejo nem pensar!
E, por acaso, vocês imaginam como os dois funcionários do Serviço Funerário estavam vestidos? Bem, o motorista vinha num terno escuro (não dava para definir a cor) de fazer inveja a qualquer mendigo. A gravata era meia-sola, ou seja, só ia até a altura do primeiro botão do casaco. Se abrisse o casaco, além da barriga, perceberíamos que o cidadão não usava cinto na calça. Agora, bem vestido mesmo estava o ajudante. Sabe aquele camarada que trabalha, trabalha e trabalha, mas não tem tempo para dormir? O rosto, deformado, parecia uma abóbora daquelas do "halloween" (a festa das bruxas americanas). Terno pra quê? Meteu uma calça cinza e uma camisa branca (?), porque afinal era com luto que ele tratava. E, claro, por baixo da camisa uma camiseta da seleção canarinho que, pela cor, deveria ser do ano de 1970, a do tri. O traje se completava com um eficiente walk man "narrando" as últimas do esporte. Uma lástima...
Bem, lá foi o velho Pedro para seu descanso eterno sem que ninguém o acompanhasse. Ninguém é modo de falar, porque a viúva e um abnegado amigo seguiram o rabecão até o cemitério.
Lá chegando, quatro valorosos funcionários aguardavam ansiosos o momento de enterrar o defunto. Levaram o caixão até a sepultura naquele silêncio característico da ocasião. Revezavam-se puxando o carrinho que os levaria ao túmulo da família do falecido. Eram três a conduzir e um a olhar o jogo numa pequena televisão, dessas de uns 5 cm2, comprada num camelô qualquer. Claro que o "telespectador" tentava disfarçar, mas isso era impossível. Como o caixão do velho Pedro, passavam o aparelho de mão em mão. Como a bola, que corria de pé em pé no campo de jogo do México...
Pararam diante do túmulo, e a viúva quis uma última despedida. Abriram o caixão e rezaram (a viúva e o amigo). A bola estava com Emerson. Emerson tocou para Cafu... "Desce o caixão, Abel", disse um dos coveiros. Veio o caixão. Cafu enfiou, de primeira, para Ronaldo. O caixão descendo... Ronaldo entrou na corrida e fuzilou no gol do adversário. Lá se foi o caixão, e Pedro junto! Os coveiros quase se engalfinharam para rever o lance. Só que o juiz anulou o gol, alegando impedimento. Abel sussurrou um palavrão no ouvido de Clarindo, o outro coveiro.
"Pega o caixão e vê se presta atenção, Zé Carlos!", disse Clarindo. Volta o caixão. Tampa-se o caixão, pois a tampa voou no momento do gol. Lá vem Ronaldinho (esse é fera!) e o adversário quase corta sua coxa com a trava da chuteira. O juiz não fala nada; quem continua rosnando é Abel, o mais revoltado. "Segura! Apara! Desce devagar! Agora, isso!", era o comando para terminar logo com a cerimônia.
E assim se fez. Depois de terem rebocado três vezes a mesma parede, além de um túmulo que não tinha nada a ver com a história, terminou o enterro do velho Pedro, falecido num dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo.
Só tem um detalhe: o corpo que é bom ficou pra fora, pois, quando Ronaldo fez o gol que o juiz anulou, o caixão se abriu e nosso herói foi arremessado, rolando jardim abaixo. Ou seja, enterraram o caixão vazio e, claro, nem perceberam.
Curiosa mesmo foi a manchete de um jornal, no dia seguinte:
'VITÓRIA BRASILEIRA NO MÉXICO MATA DE EMOÇÃO TORCEDOR DENTRO DE CEMITÉRIO, EM SÃO PAULO".

O Sufoco (outubro de 2000)

A sala era pequena, mas bem arrumada. Um cachorro sentado, esculpido em madeira, recebia os visitantes, ao lado da porta. No centro, uma pequena mesa de vidro onde se espalhavam alguns cinzeiros, e pratinhos com salgadinhos eram oferecidos aos convidados. Cadeiras simples e pouco confortáveis rodeavam o ambiente, que ainda tinha alguns quadros na parede, e luz, muita luz acima de tudo. Impaciente, o palestrante consultava seu relógio, na esperança de que os participantes viessem de uma só vez...
Dalva havia se preparado para a reunião. Como de costume, procurou saber com antecedência sobre o assunto a ser abordado. Pesquisou, levou perguntas suas e de outras pessoas, visitou páginas e páginas da Internet, leu livros, contatou professores, fez o que pode, enfim, para poder participar efetivamente do evento - uma das poucas oportunidades que tinha, sem nenhum custo, de aprimorar o seu trabalho.
Assim era Dalva. Mulher de seus quarenta e tantos anos, sempre foi preocupada com o próximo. Já há quase meia década se dedicava para uma pequena comunidade, prestando atendimento psicológico, administrando os problemas dos outros, buscando atenuar a dor e a ansiedade de tanta gente. Esforçada, solidária, interessada, era, antes de tudo, uma pessoa organizada. Gostava dessa coisa de agendar os compromissos para poder se organizar, elaborar a pauta, e aproveitar, literalmente, das oportunidades que lhe apareciam.
Era inverno. A noite daquela reunião estava fria. Dalva havia preparado o jantar para a família, como de costume. Resolveu fazer, para ela, uma sopa rápida. Tinha pressa, porque o compromisso iniciaria às 20 horas. Sentou-se à mesa da cozinha, e saboreou dois belos e esfumegantes pratos de sopa de ervilhas. E foi para o encontro.
Escolheu uma das cadeiras bem à frente do orador. Amigos de longa data, Dalva e Plínio conheceram-se no colégio. Mas, coisas da cidade grande, tomaram rumos diferentes e, de repente, ali estavam, novamente um diante do outro. Ele para falar sobre psicologia e neurolinguística; ela só para ouvir, para absorver, para aprender...
A palestra começou com dez minutos de atraso. Dalva, atenta a tudo, talvez não tenha dado importância a uma pequena pontada no lado direito de suas costas. Plínio falava com desenvoltura, e sua voz tomava conta do ambiente. Uma segunda pontada, desta vez na barriga, fez Dalva mudar de posição. Já na terceira pontada não havia mais dúvida: era o aviso de que algo de errado estava por acontecer.
Passada meia hora do início do evento, Dalva já não tinha mais posição para ficar. A sopa de ervilhas que havia tomado fazia efeito bombástico em seu intestino, gerando gases e mais gases dentro da barriga e, pior, não podendo ser liberados!!! A sala em silêncio absoluto, exceto a voz de Plínio. As cadeiras... bem as cadeiras não tinham nem almofada, para auxiliarem a pobre da mulher a, pelo menos, “esvaziar” um pouquinho. Maldita hora essa, que custa a passar e nada, nada!, colabora com a gente.
Plínio percebeu a inquietação de Dalva. “O que houve? Você está estranha?” “É, estou com gripe...”, respondeu Dalva. Agora, imaginem se gripe deixa a pessoa daquele jeito: inchada, vermelha, inquieta. O suor escorria pelo rosto, as mãos tremiam, o corpo parecia não querer resistir. Adeus pesquisa, perguntas, Internet! Que vá tudo pro diabo! Eu quero peidar!!!!, pensava Dalva.
A saída era sair, pedir licença e ir ao banheiro. Mas Plinio, antes do início, pediu para que ninguém se ausentasse, durante a palestra. Dalva não teve coragem. Ficou ali, trancada, travada, rezando, implorando a Deus e a tudo o que é santo para que o tempo voasse, e ela pudesse se “desfazer” daquela montoeira de gases que circulavam pelo seu interior. Num dado momento, chegou a pensar que estava levitando, a pobre coitada!!!
O pior são as alucinações. Passou por momentos extremos quando imaginou uma privada, só sua, bem à sua frente. Ou, quando pensou ter ouvido o barulho das turbinas de um avião, passando ali, ao lado da sala. Um motoqueiro, uma britadeira, a sala vazia, as pessoas de fone no ouvido, um grito de gol; tudo isso era sonho para uma Dalva arrasada pelas ervilhas da sopa quente que tomou antes da reunião.
Teve um momento em que não deu prá segurar. Traçou uma estratégia, e decidiu que, pelo menos uma parte, ia descarregar. Primeiro, começou pigarrear. O barulho do pigarro poderia encobrir o “outro” barulho. Mas, convenhamos, pigarrear e peidar, ao mesmo tempo, nunca vai dar certo. Desistiu dessa. A segunda tentativa foi ficar batendo com a ponta de uma caneta no cinzeiro, prá fazer um sonzinho. Também se frustrou porque, além do barulho não ser suficiente para encobrir o “outro” barulho, Plinio chamou sua atenção (e todos fixaram o olho nela). Na terceira tentativa obteve sucesso parcial. Consistiu em arrastar a cadeira e largar a “bufa”, aos poucos. É nessas horas que percebemos como somos hábeis e criativos. Dalva conseguiu liberar uma pequena parte e, se isso foi bom, também foi ruim, porque a parte restante fez pressão, ainda maior, para poder sair. Que sufoco!!
Mas, não há mal que sempre dure, e a reunião acabou hora e meia depois. Apressada, Dalva foi ao corredor “chamar o elevador”. Que beleza!!! Sozinha, livre, à vontade para mandar bala... Não pensou duas vezes (nem dava prá pensar). Descarregou o botijão de um jeito que, quem ouviu, se espantou. Sabe o navio, quando atraca no porto? Tem uma corda imensa, grossa, que é atada a um suporte, em terra, que ajuda a segurar o navio. Depois de atada, com o movimento das ondas e a força da embarcação, ela é pressionada, resultando num barulho característico, como se fosse algo rangendo. Pois foi esse o barulho que Dalva fez no corredor. Uma pessoa, que estava no andar de baixo, ainda gritou: “Que saúde, hein!”...
Foi tudo muito rápido. A “descarga”, e em seguida a chegada do elevador. Dalva só. O elevador abre a porta, Dalva entra e, com ela, adivinha quem? No vácuo, sempre vem um pouco atrás... De repente, vem Plinio. Mais uma pessoa; outra, outra... A porta ia fechando... “Desce!!!!”, ainda gritou alguém. Segura a porta, entra a última pessoa. Doze andares, e o elevador cheio (cheio mesmo!). Alguém se atreveu a falar: “Nossa, será que tiraram o lixo por esse elevador?”. Mais um comentário: “Eu tomei banho hoje!”. Aí vem uma voz acústica lá do fundo: “Tem nego que é podre, mesmo!!!”.
Térreo... A porta mal abriu e o povo lá de dentro se engalfinhou para sair. Dalva no meio. Quieta, enrustida, envergonhada, frustrada por não ter aproveitado a palestra. Mas leve, feliz, aliviada...
Chegou em casa, procurou a panela com a sopa de ervilhas e jogou tudo fora (a panela inclusive). Nunca mais iria tocar na palavra “ervilha”. Foi pro chuveiro, tomou um belo de um banho, e deitou-se na cama. De bruços.
Ali não tinha inimigo; o campo era seu...

O Jantar (julho de 1998)

Aconteceu na década de 70. Nessa época, com a ditadura militar a pleno vapor aqui no Brasil, vivíamos o que chamaram de "milagre brasileiro". Ou seja, crescimento de primeiro mundo, baixas taxas de juros, etc. O fato é que, embora cerceado, o povo vivia um bom e próspero momento (que depois se reverteria e... só Deus sabe como!).
Mas, ainda namorados, Lelo e Ruth sonhavam com a construção de seu mundo, com o futuro que viria, com a casa própria, o carro, e todos aqueles planos que fazemos quando pensamos em casar. E lutavam, cada qual em seu emprego, em busca desse ideal. Difícil busca, contudo, para quem sempre revezou trabalho com estudo, emendando noites de vésperas de provas com árduos dias de longos congestionamentos, e intempéries as mais variadas.
Ricos, com certeza, não eram. Pobres, muito menos. Viviam dentro dos padrões da classe média, que tentava ascender a um patamar um pouco melhor. Por isso mesmo, dinheiro no bolso é o que menos tinham.
Mas, como todo ser humano, procuravam renovar-se em momentos só seus. Aquela coisa de sair para um programa barato, apenas para se estar junto. Para conversar, para curtir a cidade, sonhar e, claro, para namorar...
Numa tarde de domingo qualquer foram ao cinema. Não me perguntem qual filme foram ver, porque talvez nem eles mesmos saibam nos dizer. É que, também naqueles anos 70, ainda havia o costume de se utilizar do cinema para o namoro.
Voltavam no começo da noite, naquela hora em que a fome vem batendo forte. Ruth não teve coragem de falar, mas Lelo, que também estava faminto, sugeriu que comessem alguma coisa. Consultaram o bolso e... digamos, em moeda de hoje, algo em torno de R$ 10,00. Com um agravante: não existiam essas casas de "fast food", onde um sanduíche e uma Coca custam R$ 4,50.
Iniciaram uma pequena peregrinação, em busca de algo que lhes coubesse no estômago, segundo o tamanho do bolso. De repente, um cartaz na porta de um restaurante chamou a atenção: "Sopas por R$ 10,00". Pronto! Estava aí a solução. Afinal, sopa é uma delícia e alimenta bem. Quer dizer, não é aquela "quantidade", aquela "sustância", como diria outro amigo meu, mas na hora da fome...
"Boa noite", disse o garçom prestativo e ansioso, quando viu aquele casal bem vestido e perfumado. "Já escolheram?". E Lelo ali, firme e forte, salivando cada prato que olhava no cardápio, sem poder dar a entender a realidade financeira que o envolvia. Fez cara de rico, perguntou por um ou dois pratos e, finalmente, em tom convincente soltou: "Uma sopa... hummm... de ervilhas, por favor!".
Seguiu-se, então, o seguinte diálogo entre o garçom e Lelo:
"Muito bem, uma sopa de ervilhas. E, o quê mais?"
"Nada mais, obrigado", agora já meio constrangido, completou Lelo.
"Madame não vai jantar?"
"É para ela a sopa..."
"E, para o senhor?"
"Nada, obrigado. Já jantei; é só para encerrar a noite..." (sorriso amarelo)
"Bebidas?"
"Não, obrigado. Apenas a sopa..."
Veio a sopa. Quentinha, cheirosa, apetitosa. Maravilhosa! Ruth, coitada, ofereceu ao namorado e ele não quis (por educação, lógico!). Ainda que acompanhava o prato uma pequena porção de fatias de pão. Lelo tratou de comer aquele pãozinho e, vez por outra, mergulhava um pedaço dentro da sopa de Ruth, sem que o garçom percebesse.
Satisfeitos, pediram a conta. Veio a despesa: total R$ 11,00. Lelo havia se esquecido da cobrança do serviço, ou seja, os 10% que costumeiramente são incluídos. Ali estava, sobre a mesa, a sentença de morte daquele casal que resolveu fazer um programinha barato. Mas, Lelo não se apertou. Para surpresa de Ruth, chamou o garçom novamente e pediu o cardápio. Faltava a sobremesa.
"Escolhe aí, Rutinha, fica à vontade". A namorada, atônita, imaginou que o pão tivesse feito algum estrago na cabeça do companheiro. "Escolhe!", insistiu. E foi mais longe: "Olha, tem pudim, morango com creme, sorvete, frutas... deixe-me ver... Morangos com creme! Boa pedida, você quer morangos com creme... Garçom!". "Lelo!", sussurrou Ruth, "...você está louco? O que significa isso?". "Significa que você vai ficar comendo que eu vou atrás do dinheiro. Entendeu, agora?"
E, enquanto a namorada saboreava aquela deliciosa fruta, o namorado correu em casa e obteve um "empréstimo" do velho pai que, já pensando em se recolher aos aposentos, foi surpreendido com a história maluca que o filho acabara de lhe contar.
Voltou Lelo ao restaurante, todo faceiro, porque agora ainda sobraria um belo troco para o próximo encontro. Ruth estava apreensiva e respirou aliviada quando viu o semblante feliz do amado.
"Por favor, agora sim, a conta!", exigiu lelo.
Veio a conta. Algumas notas de Reais cobriram o pequeno pires que o garçom havia trazido. Foi o pires, e Lelo aguardou o troco. Sorriram, um para o outro. Como o super-herói que salva a mocinha, Lelo e Ruth teriam um final de domingo feliz.
Veio o garçom com o troco. Mal colocou o pires sobre a mesa e Lelo, ansioso e confiante, falou: "Muito obrigado, estava ótimo!". E o garçom, pensando que era uma "caixinha", puxou para si novamente o pires, e com um sorriso largo emendou, ao mesmo tempo em que virava as costas: "Somos nós quem agradecemos... Volte sempre!"
E embolsou o troco do pobre Lelo...

O Chato (setembro de 2001)

Quem é que, entre nós, não conhece um chato? Em nosso relacionamento diário, pessoal e profissional, temos a oportunidade de conviver com esse ser diferenciado que, ao contrário do que se pode imaginar, representa uma parcela significativa da população.
Por ser o que é, confunde-se com o próprio ser normal, podendo tanto estar muito bem vestido, como usar roupas excêntricas, sem a menor preocupação de combinação de peças e cores. Mas, você consegue visualizá-lo através de seu comportamento, ainda que não abra a boca. De atitudes inquietas, parece estar sempre procurando algo para mexer, atingir seu objetivo. Assim, olha por todos os cantos, mexe em tudo e sorri para todos. Procura o que não tem, apenas para contestar. Nunca está contente com nada, faz sempre melhor, acredita no seu poder infinito de realizar e consertar...
Convivi com vários chatos, Mas, alguns deles marcaram sua presença em minha vida, tamanha era sua chatice. Sempre fui (ou tentei ser) compreensivo, sem ser chato também, entretanto as situações em que era colocado, às vezes, me forçaram a "esquecer" alguns princípios de educação...
Certa vez, trabalhando no Banco, numa segunda feira que antecedia um feriado (ou seja, todo mundo "emendou" e eu ali de castigo), vi na sala de espera, perto do horário de fechamento, uma figura que me chamou a atenção. Já pela sua altura era notado. Vestia uma camisa rosa social, uma bermuda cinza com cinto branco, meia social marrom e kéds preto (lembra do kéds? era um tênis reforçado). Trazia consigo um guarda-chuva e uma "capanga" (pequena bolsa para guardar pertences de toda espécie). Assobiava "O ritmo da chuva", e aquilo tirava a concentração de todo mundo. Puxou conversa com a recepcionista, com outros clientes que não conhecia e, a um dado momento, começou a criticar o Banco em voz alta. Lá fui eu, disponível no momento, "apagar aquele incêndio"...
Entrou na sala de atendimento como se estivesse pisando um templo sagrado. "Que lindo!", exclamava a tudo que via. O tapete, os móveis, os telefones, os quadros, tudo era lindo. "Muito prazer, Afrânio... Olha, eu sempre quis entrar nesse Banco. Não sei, mas achava que não era pro meu "bico". Então, ficava na dúvida... Mas hoje criei coragem e entrei! Que lugar lindo! Só que esse seu arquiteto, hein! Pisou na bola ali naquela sala de reunião. Imagina, uma mesa daquele tamanho e só seis cadeiras! Além disso, essas cores dos móveis com o tapete..."
A metralhadora disparou e foi sobrando "bala" prá tudo que é lado. Eu tentei contê-lo: "Pois não, que bom que o senhor nos procurou! Em que podemos ser úteis?". E o cidadão continuou: "Bom, espero ter aqui o atendimento que o MoneyBank não me deu. É engraçado, a gente é cliente há tantos anos, prestigia, e o Banco não tá nem aí. Porque eu uso mesmo! Ah, isso eu uso! Se eu tenho um cartão de crédito é prá usar. Tem uma loja que eu compro, todos os dias, cem gramas de castanha de caju. Pago com cartão, e daí? Vai achar ruim? Se eu fosse porcaria não me davam cartão, certo?... No banco também é assim. Abriram minha conta, quiseram meu dinheiro, usaram meu nome prá falar prá todo mundo que os clientes estão satisfeitos... E agora, na hora do vamos ver, eles me rejeitam? Vocês não são assim, vocês tem boa fama, por isso que eu vim aqui..."
Os clientes antigos, acostumados com a postura e a filosofia do Banco, estranhavam aquela figura "diferenciada" entre eles. Mais uma vez rezei uma "Ave Maria" e pedi a Deus prá me dar paciência com o tal do cliente novo. "Sr. Afrânio, o senhor quer uma conta corrente? Podemos ver a documentação, sua renda mensal...". "Não me fale em renda mensal! Quem cuida disso é meu contador. Aliás, não quero dar trabalho a ninguém. Eu procuro, mesmo, é uma poupança segura que possa me garantir o futuro. Sabe, a gente vive numa cidade dessas, a saúde...". Cortei a conversa: "Que bom! Uma poupança... Podemos abri-la, com o maior prazer... Qual o valor que o senhor pretende aplicar?". "Bem, inicialmente pretendo colocar uma parte do que tenho no MoneyBank. Tá louco! Banco estrangeiro nunca mais! Lá só se fala em dólar, aqui nossa moeda...". "Quanto, por favor, senhor Afrânio?". "Bem, pensei numa quantia simbólica, mas vai crescer. Você aposta em mim, acredita no meu potencial e eu trago mais, aos poucos, mês a mês". "Está bem, então de quanto é sua aplicação inicial?". "Digamos... uns dez reais, está bem assim?"
Seria cômico se não fosse trágico. A essa altura dos acontecimentos, todas as atenções estavam voltadas para a figura folclórica que eu atendia. E continuava, falando alto, botando banca de bacana, discursando contra o governo, e contra o “ex-banco”. Num determinado momento, pediu para ir ao banheiro e, se tivemos uma trégua de minutos, ao voltar ele nos “compensou” ao aparecer fazendo rolinho de um pedaço de papel higiênico, como o qual penetrava no nariz a fim de limpa-lo, na frente de todos.
Bem, eu tinha de definir aquela situação. Maltratar, jamais. Isso nunca fez parte da minha educação, nem da postura profissional. Além disso, existem algumas reações básicas que você nunca deve ter diante de um chato. Como, por exemplo, contestar, orientar, duvidar, perguntar, sugerir, etc. O tiro pode sair pela culatra. Portanto, só resta uma alternativa a curto prazo: obedecer. E foi o que eu fiz...
“Pronto, sr. Afrânio! Aqui está a sua poupança de R$ 10,00 reais devidamente aplicada, e já rendendo juros e correção monetária a partir de agora! Muito obrigado pela escolha do nosso Banco. O senhor poderia me dar o cheque, para eu anotar os dados da aplicação?”. Perceberam meu atendimento?
“Cheque? Aplicação? Olha, querido (termo utilizado pelo chato profissional), eu não ando com talão de cheque em véspera de feriado. Você sabe, a violência está insuportável, o governo não nos protege, só Deus para nos proteger... De mais a mais, eu hoje só vim mesmo para conhecer seu Banco, e as condições que vocês têm para aplicar meu dinheiro”.
E, levantando-se, foi saindo de fininho após quase uma hora de tempo perdido. O público, que se transformou em platéia, acompanhou os passos firmes da “figura”, que se retirava do ambiente.
Mas, ao chegar na porta, deu aquela meia volta sobre os calcanhares, olhou bem para todos, respirou fundo, sorriu no canto da boca a felicidade da atenção que lhe dispensavam, e emendou firme e forte:
“Mas eu vou pensar no assunto. Quero ver se faço uma também para o meu filho. Vocês têm poupança de R$ 1,00?”
E, virando as costas, nem esperou pela resposta.

O Carro (abril de 2003)

A padaria, como a maioria delas, ficava na esquina de um bairro industrial da cidade. Sem nenhuma preocupação arquitetônica a construção era simples, cuja entrada principal estava voltada para uma Avenida, e tinha um recuo de maneira que, antes de se chegar ao seu ambiente interior, haviam três espaços demarcados na calçada rebaixada para que os automóveis dos fregueses pudessem ali estacionar.
Como única opção para alimentação dos trabalhadores da região, a padaria tinha bom movimento, embora a qualidade dos produtos que servisse fosse de nível inferior. Mas, limpa, cobrando de acordo com o poder aquisitivo dos consumidores, e com atendimento cordial, funcionava bem.
Era uma terça feira, na hora do almoço. Em torno do balcão de alumínio viam-se pratinhos servidos com quitutes de preparo rápido, a estufa recheada de bolinhos, tortinhas, pastéis, uma variedade de salgadinhos para todos os gostos. Nos banquinhos que circundavam o balcão, e nas poucas mesas simples que se dispunham numa área a elas destinada, havia muita gente. Gente simples, de macacão sujo ou de avental idem, ao lado de pequenos empresários e funcionários de escritório, crianças, donas de casa, bêbados, jogadores de máquinas eletrônicas, de tudo um pouco, enfim. Os funcionários, atarantados, tratavam de dar conta aos pedidos, e do “serviço com qualidade” que era lema do lugar.
Foi quando as atenções se voltaram para fora. Através de portas e janelas de vidro, os olhares dos presentes se fixaram numa figura diferente que, a partir da calçada, indicava sua intenção de juntar-se a eles, mas de uma maneira estranha.
O homem que vinha da rua parecia ser um de seus moradores. Daqueles que não têm onde ficar, e param quando se cansam, comem do que lhes dão, e dormem ao relento, na esperança de encontrarem, um dia, quem lhes reconheça o direito de serem iguais a todos. De altura mediana, moreno claro, magro, devia ter seus trinta e dois anos, no máximo. Apesar do aspecto mal cuidado, barba por fazer, roupa velha e suja, aquele homem parecia brincar com seu destino. E foi isso que chamou a atenção de todos.
Apareceu pelo meio fio da rua, simulando que estava dirigindo um carro. Os braços estendidos para frente davam a nítida impressão de que ele controlava o volante, ora virando para à esquerda, ora para a direita. Acionou o pisca pisca, manobrou, e entrou numa das vagas. Olhou pelo retrovisor, acertou o carro na vaga, puxou o freio de mão, abriu a porta, e desceu do veículo. Tomou cuidado de fechar a porta sem batê-la, e travou-a com a chave. Tudo fictício, tudo simulado. Partiu, então, feliz, e girando o chaveiro (também fictício), para a sua entrada triunfal na padaria.
A esta altura os frequentadores, mesmo surprêsos, riam da sequência desenvolvida pelo novo freguês, e esperavam pela sua vinda porque queriam ver de perto uma figura tão engraçada. Havia, claro, os preconceituosos, os que, mesmo sussurrando, não exitaram em criticar a presença de um “indigente”, alguém que pudesse “contaminar” o ambiente com uma eventual doença, ou mesmo com sua falta de higiene. Mas, o fato é que o homem entrou, e lentamente tratou de caminhar procurando menos um lugar do que um resto de qualquer coisa que fizesse matar sua fome. Em segundos apareceu, ao seu lado, um dos funcionários do lugar tentando convencê-lo a esperar pela “qualquer coisa” do lado de fora. Como ele pediu um copo d’água, o funcionário tratou de agilizar para que ele o bebesse o mais rápido possível e, assim, finalmente se veria livre do visitante.
De repente, mais uma surprêsa. O homem olhou para fora e viu um caminhão de bebidas estacionar bem atrás de onde estaria o seu suposto carro. Foi o suficiente para sair apressado, esbarrando nas pessoas, derrubando coisas, indo direto ao motorista do caminhão. De dedo em riste, o homem queria que o caminhão saísse de onde estava, e o motorista deste, sem ao menos olhar na cara do sujeito, continuava a fazer o seu trabalho de descarregar a bebida. Houve até quem, de dentro da padaria, alertasse ao motorista que ele havia obstruído a passagem do “veículo” do freguês mas, impassível e assobiando, continuava a pegar a bebida e levar até a padaria, para novamente buscar novo carregamento. Foi assim durante uns cinco minutos. Até que, findo o trabalho, e vencido pela reclamação do homem, o motorista resolveu sair dali e encostar um pouco mais adiante.
Todos respiraram aliviados. Era o que faltava para que tudo voltasse ao normal.
Já ia voltando para dentro da padaria, quando o homem, e os demais, ouviram novo ruído de carro estacionando. O homem voltou seu olhar para trás e, ainda mais surprêso, viu um carro do Detran parar ali, atrás do “dele”. De dentro desceram dois policiais que queriam apenas matar sua sede. A padaria prendeu a respiração. Foram segundos de verdadeiro suspense...
Ao ver os policiais o homem ficou perturbado. O que teria passado naquela cabeça? O fato é que, ao se cruzarem, entreolharam-se desconfiadamente. Os policiais, um de cada lado, observavam aquela figura estranha, parada, trêmula, olhando para eles. E o homem, angustiado, indeciso, assustado, parecia procurar uma forma de abordá-los.
- Tudo bem?, perguntou um dos policiais.
- Tttttuddddo, respondeu o homem.
A esta altura a padaria mais parecia a arquibancada de um estádio de futebol. Os fregueses abandonaram seus lugares, deixaram suas refeições, e disputavam cada centímetro de chão, para testemunhar aquele momento. Viram quando houve uma tentativa de diálogo.
- Algum problema, amigo?, disse o policial.
- É...
- É o quê?, insistiu
- É...é...é que...
- Fale, homem!
- O senhor... O senhor... é...
- Não vai falar?
Foi aí que, movido por uma força superior o pobre homem resolveu falar.
- É que o senhor... Bem, o senhor parou o carro...
- Sim, parei, e daí? Disse o policial.
- O senhor parou, atrás do meu...
- O quê???? Atrás de onde???, indagou o policial, surprêso e rindo, enquanto olhava para o colega...
O homem perdeu a compostura, e passou a falar alto.
- Atrás do meu, não ouviu? PAROU O CARRO ATRÁS DO MEU, E EU QUERO SAIR!
Os policiais, atônitos, até que olharam bem para certificar-se de que não havia carro nenhum ali. Depois, refeitos, resolveram dar continuidade no assunto. E um deles disse:
- Está bem, paramos sim. Mas, foi de propósito.
A padaria, parada, acompanhava. O homem retrucou:
- De propósito? Como assim? Não veem que quero sair? É um direito meu!!!
- Espere, disse o guarda. Paramos de propósito, porque estamos fazendo uma verificação na redondeza. Deram parte de um veículo roubado, com as mesmas características que esse seu aqui...
- O quê? Perguntou o homem, de olhos arregalados...
- É isso aí, amigo. Por favor, os documentos do veículo e sua Carteira de Habilitação...
Pois o pobre homem teve no rosto o reflexo do pavor. Primeiro ficou petrificado, olhando para a mão de um dos policiais que, espalmada à sua frente, esperava pelos documentos solicitados. Depois, e lentamente, começou a mover-se para trás. Foi um passo, depois mais um, e outro, outro... Até que disparou pela avenida, cruzando perigosamente na frente de outros veículos.
Na padaria, passado um momento de frustração, a vida voltou ao normal.
Numa das ruas próximas, sentado na calçada, ofegante, transtornado, triste, indignado, o homem tentava contar para um colega de rua seu. Enquanto se refazia do acontecido, virou o rosto para o amigo e disse:
- Dá uma chegada na padaria, prá mim. Vai pelo outro lado da calçada. Disfarça e olha. Depois me diz se o guincho levou meu carro...

Conversa de Barbeiro (julho de 1998)

Todo mundo sabe que, dentro de um táxi, num salão de beleza ou no barbeiro é que saem os papos mais refinados e curiosos da sociedade. Se você quiser saber de algo, não tenha dúvida, escolha uma entre as três opções e a questão estará resolvida.
Outro dia fui "aparar" a careca no salão do Chico onde, há anos (desde o tempo em que eu tinha cabelo) costumo cortar.
O ambiente, simples, é dividido entre dois profissionais. Francisco, um senhor de seus sessenta e poucos anos, careca, com largas costeletas invadindo as bochechas, está sempre falante. Gosta de manter a clientela "atualizada", e fica louco de raiva quando um novo freguês escolhe seu parceiro para cortar; é indisfarçável sua reação e isso, já havíamos falado a respeito, torna-se um marketing negativo para ele. Mas, para aquele velho profissional, pouco importa a conseqüência de seu desprezo.
João é seu sócio. Um pouco mais novo talvez, esse tem cara de barbeiro: cabelo grisalho bem cortado e aquele bigodinho branco, fininho, quase reto, aparado sobre o lábio superior. Religioso, mantém-se reservado, concentrado no seu trabalho. Raras vezes ouve-se sua voz e, assim mesmo, é quase um sussurro.
Jamais brigaram. Claro, uma discussão aqui, um mal-entendido ali, isso faz parte. Mas briga, de verdade, nunca!
Pois foi que cheguei e, ainda cedo, estavam sozinhos. João arrumava os apetrechos, escovando-os. Limpava também o pequeno aparador que sustenta pentes e tesouras de todos os tipos e tamanhos (acho que para "todos os cabelos"). Chico, sentado num canto, fumava. No ar, a voz romântica de Nelson Gonçalves devia estar levando ambos a longínquos e bem vividos lugares...
Sentei e, como de costume, brinquei com Chico: "Tira bastante, que eu pareço um Beatle!". Pobres dos meus cabelos, que saudade!
Logo chegou outro freguês e sentou-se na cadeira do João. Minha filha, que me acompanhava, observava atenta a movimentação daquilo tudo. Só movimentos, o silêncio imperava.
Mas, salão que é salão tem que ter seu temperinho. E Chico, de repente, solta esta: "Amor... amor não existe. Mulher quer é dinheiro!". O sotaque caipira transformava o "amor" do Chico numa palavra maior do que simplesmente era.
João retrucou: "Claro que existe! Sem amor a gente não vive..."
"Se existisse, a Maria não tinha me largado", continuou Chico, abrindo seu coração.
João filosofou: "Não precisa estar junto para sentir amor. Pode amar mesmo à distância. E, outra: você pode amar dando de comer a alguém, ou vestindo uma criança..."
"Isso é amizade, não é amor!", contestou Chico.
"Amor ao próximo...", rebateu João. "...está nas Escrituras"
Silêncio, novamente. Apenas o picotar das tesouras e, cada um de nós a pensar naquele assunto. Mas Chico é fogo! Sabe, é essa coisa de querer dar a última palavra. E mandou esse balaço: "Você tem certeza que a baiana te ama?". Nossa Senhora! Temi pelo pior. Mas João limitou-se a responder: "Claro que sim!".
E novo ataque: "Pois, se eu fosse você, não teria. Tanto que ela te judia, e você ainda acha?".
Que situação! Ficamos constrangidos com aquilo, mas ouvindo e torcendo para que tudo acabasse bem.
João, tão ingênuo, ainda argumentou: "Ela gosta sim! Convidou-me para ir para a Bahia com ela!".
E Chico insistindo: "Amor e amizade não existem. Já falei que mulher quer mesmo é grana...", e declamou dois versos de uma canção antiga, porém conhecida, também de Nelson Gonçalves: "Amigo, palavra fácil de pronunciar; amigo, coisa difícil de se encontrar..."
Nesse ponto minha careca já estava devidamente aparada e saí deixando abraços no ar.
Três passos lá fora, minha filha questionou:
"Pai, que coisa absurda esses dois! Imagina: onde está a vida, sem amor e sem amizade?".
Nada a declarar. Matou a charada...
Mas, "pessoas são pessoas", dizia um professor meu. E, cada um desses seres incríveis passa pelas mais diversas e diferentes situações e emoções, tornando-os também diferentes, uns dos outros.
Agora, de uma coisa eu tenho certeza: tudo o que somos e fazemos, tudo que nos cerca e nos guia, tudo, enfim, está envolvido num sentimento tão simples quanto tão inexplicável, e que aprendemos a chamar de "amor".
Querendo ou não o velho Chico...